Texto: Miguel Ângelo de Andrade
Secretaria Municipal da Comunicação Social (Secom)
As marteladas insistentes das barricarias nas primeiras horas das manhãs funcionavam como um despertador que fazia toda a gente sair da cama e se lançar ao trabalho na roça para garantir o alimento das numerosas famílias que viviam no bairro Umbará, em meados do século 19.
As barricarias, como o próprio nome diz, fabricavam barris para estocar a erva-mate. Na época, o ciclo da economia ervateira vivia o seu auge no Paraná.
Vista do bairro Umbará com destaque para a igreja matriz São Pedro do Umbará. Foto: José Fernando Ogura/Secom
O Umbará é o segundo maior bairro em extensão de Curitiba, com uma área de 22,47 km², ficando atrás apenas do CIC. A população atual é formada por 21.990 moradores, de acordo com o último censo.
Era uma vida dura nos primórdios. Além na lida na lavoura, também precisava tirar o leite das vacas, recolher os ovos e alimentar os animais, já que estes insumos complementavam a alimentação e podiam gerar até alguma renda para as famílias.
Um bugio como bicho de estimação
Mas também tinha momentos de muita alegria e diversão. Nas horas de folga dava até para brincar com um bugio.
As experiências fazem parte das memórias de dona Brígida Moletta, que está com 97 anos, e ainda hoje vive no bairro, junto com o numeroso clã, na Rua Nicola Pelanda, no trecho que ficou conhecido como a Rua da Família Moletta, que se tornou famosa devido à incrível decoração de Natal, que este ano atraiu 100 mil visitantes, segundo estimativa do filho Vani Antônio Moletta.
Dona Brígida contou que um bugio, gênero de primatas do grupo Alouatta, acabou se domesticando devido ao convívio diário da família, que era formada por 13 irmãos, e se tornou um pet que era figurinha fácil no terreno da propriedade.
“Era um animal bonito. A gente levava o bicho na cozinha de casa para alimentá-lo. Era muito divertido”, lembra Dona Brígida.
Caminhada de 12km para comprar vestido de noiva
O Umbará era assim: tinha os encantos de ser uma zona rural de Curitiba, mas amargava a distância dos bairros que dispunham de lojas e redes de serviços.
Quando foi para se casar com Irineu Samuel Moletta, dona Brígida teve que enfrentar uma caminhada de 12 quilômetros até o bairro Portão para pegar o bonde e ir até o Centro para comprar o vestido de noiva, porque era lá que as lojas estavam estabelecidas.
“Era uma vida muito difícil. Não tinha luz e quando chovia era muito barro. Quando a gente ia na igreja, tinha que levar o calçado numa sacola, caminhar descalço até um ribeirãozinho para lavar os pés e só então colocar os sapatos”, relatou a matriarca.
Foi daí que veio a fama do “um barral” (um barro só), no sotaque das famílias italianas e polonesas que povoaram a região. Mas, como muitos pensam, o nome do bairro não veio dessa corruptela.
Rua Nicola Pelanda no ano de 1980. Foto: Reprodução/Arquivo pessoal
Umbará é um nome indígena, aponta historiador
O historiador Marcos Zanon, um especialista em Umbará, explica que esta é uma versão alternativa que se popularizou, mas Umbará é um nome indígena, como o são os nomes da maioria dos bairros da cidade, inclusive o nome de Curitiba, que em tupi quer dizer “muito pinheiro”.
De acordo com o historiador, existia uma língua falada pelos primeiros moradores, os mineradores que vieram do litoral. Eles falavam um idioma chamado de língua geral de origem tupi. Foram eles que começaram denominar os locais, que consta no Dicionário de topônimos tupi-guarani.
Na imagem, o historiador Marcos Afonso Zanon. Foto: José Fernando Ogura/Secom
“Todos os bairros mais antigos de Curitiba, a maioria deles tem a origem do nome ligado às palavras de origem tupi-guarani. Neste caso, Umbará se refere ao fruto vermelho, quando a planta está carregada. Por isso que tem a etimologia do nome. Só que essa origem é de apenas para quem estuda e conhece um pouquinho de tupi e vai pesquisar nos documentos antigos. Então, a coisa mais natural que existiu é que as pessoas muitas vezes fossem criando versões alternativas. Eu mesmo, nesse boletim antigo, quando eu conversei com os moradores, eu acabei registrando essa ideia de (um barrá) como um barro só. Porque é a memória que persistiu”, justificou.
Assim, “Umbará” era a palavra que os indígenas utilizavam para designar as pequenas frutas silvestres quando começavam a amadurecer.
OUÇA AQUI
Marcos Afonso Zanon, historiador.
Uma câmera na mão e um Jeep emprestado na Nicola Pellanda
Cria do Umbará, Marcos Zanon é entusiasta da história do bairro onde nasceu e vive até hoje. Desde cedo, sentiu o chamado da ciência que estuda as ações humanas no tempo para o seu torrão natal.
Em 1983, quando tinha 16 anos, Marcos Zanon emprestou uma câmera JVC de Reinaldo Nichele, colocou seu amigo Fábio Nichele para operar o equipamento e assumiu o volante de um Jeep 1951 para registrar o cenário da Rua Nicola Pellanda da época. As imagens retratam o casario, entre residências antigas e algumas mais arrojadas que dividem espaço com pequenas chácaras cercadas de áreas verdes.
“Eu senti que precisava coletar história. Foi um trabalhão para conseguir o empréstimo do carro e da câmera, mas o resultado valeu a pena”, disse Marcos, que é autor dos livros Oleiros do Umbará – Tecnologia e História e Umbará: gentes, vida e memória, entre outras publicações.
Brasileiros e imigrantes italianos e poloneses
De acordo com o historiador, o bairro Umbará surgiu como ocupação espontânea.
“O documento mais antigo que eu encontrei que cita o bairro Umbará é de 1832, na Câmara de Vereadores. Mas existe a presença de moradores desde os idos de 1800 e pouco. As primeiras famílias dos brasileiros a povoar a região são os sobrenomes Cruz, Lima, Gomes e Arvi. Os italianos e os poloneses vieram em um segundo grupo porque residiam em outros lugares de Curitiba, como Água Verde, Santa Felicidade, e foram adquirindo terras desses caboclos lá na região”, explicou.
OUÇA AQUI
Marcos Afonso Zanon, historiador.
Os imigrantes italianos que foram chegando acabaram se integrando também à atividade econômica da erva-mate. Tanto fornecendo erva-mate, como fazendo a colheita, o sapeco (secagem no fogo), a moagem da erva e também na produção de barricas.
“A emancipação do Paraná, o crescimento da cidade de Curitiba, tudo estava muito ligado ao comércio da erva-mate. Então, durante 1890, por exemplo, até 1930 mais ou menos, a agricultura e as barricarias das famílias Gabardo, Negrello, Merlin, Ancai, Zanoncine, mais para o lado do Tatuquara, Gai. Mas todo o fundo do quintal praticamente tinha uma barricaria”, relata Zanon.
Mudança para ficar mais perto da igreja
Mas a dona Bronislava Wosniak não mirou na erva-mate quando resolveu se estabelecer no Umbará em 1919. Foi a devoção à fé católica que a trouxe ao bairro. Ela e o marido, Jacob Wosniak, moravam à época na região que hoje integra o vizinho município de Fazenda Rio Grande.
Quem conta a história é o neto Daniel Wosniak, dono da Cerâmica Beira Rio. Para vir à missa na Igreja do Umbará que dona Bronislava tinha hábito de participar, o casal tinha que percorrer todo o trajeto de carroça.
“Minha avó gostava muito de vir à missa e vinha de carroça com o meu avô lá no fundo da Fazenda Rio Grande porque não tinha igreja lá. O meu avô era carpinteiro e fez uma carrocinha bonita para vir à missa. Mas era muito barro, era difícil de vir, chovia um pouquinho, já não tinha como vir. Aí a minha avó fez ele vir comprar o terreno aqui para chegar mais perto aqui da igreja”, relatou Daniel.
OUÇA AQUI
Daniel Wosniak, empresário.
Negócios feitos de barro e muito trabalho
Mas a terra argilosa, que formava o famoso barro sempre presente na vida dos moradores a região, também tem um papel fundamental na história da família Wosniak.
Daniel conta que o pai, Antônio Wosniak, tinha uma pequena olaria em 1947. Em 1949 a família abriu outra empresa do ramo, a Cerâmica Wosniak.
“Aconteceu que o meu pai teve que vender a cerâmica porque que a minha mãe (Lúcia Wosniak) não podia ajudar porque tinha que cuidar de uma filha deficiente. Eu estava com 16 anos e tive que começar uma cerâmica porque meu pai queria comprar um caminhão para que eu trabalhasse com carreto de areia”, relembra.
Daniel Wosniak ao lado do amassador de argila de 1967, o primeiro equipamento que deu origem à Cerâmica Beira Rio. Foto: Hully Paiva/Secom
A extração de areia era outra atividade em expansão na região à época. Daniel Wosniak montou a cerâmica em 1967. Até hoje guarda o primeiro amassador de argila movido à tração animal, uma peça de grande valor histórico.
“Foi difícil! Puxava barro com uma carroça. Às vezes pensava, será que paro, será que não paro... A minha olaria era pequenininha e as outras dos vizinhos já eram grandes, motorizadas e eu ainda operava com uma carroça”.
OUÇA AQUI
Daniel Wosniak, empresário.
Com muita persistência e primando pela qualidade do produto, o negócio foi evoluindo aos poucos e se consolidou. Os tijolos produzidos pela Cerâmica Beira Rio hoje estão nos restaurantes da rede Madero e na sede do Banco Central, no Centro Cívico, entre outros prédios famosos.
Depois de mais meio século de atividade, Daniel diz que os negócios tocados com os filhos estão em ritmo lento atualmente. “O mercado não está bom. Você viu a situação do país, não é? Tudo isso dificulta e o meu produto hoje é um dos mais caros do Brasil”, justifica.
Todos se conheciam e se ajudavam
O empresário avalia que a vida mudou muito no Umbará. Nos primórdios da formação do bairro, todas as famílias se conheciam e formavam uma comunidade.
“Aqui todos se conheciam. Os filhos ficavam grudados com a família. A vida social no meu tempo era futebol, as festas, os bailes, a gente pescava e ia nadar nas cavas de areia. Atualmente, alguns jovens ainda permanecem por aqui, a gente se encontra na igreja, mas outros se formam e vão viver em outros lugares”, compara.
Aplicando injeções e dando apoio nos funerais
Os filhos da dona Maria de Lourdes Pelanda, 91 anos, fazem parte do grupo dos que nasceram e continuam vivendo no Umbará. A matriarca teve quatro filhos: Maria Eloisa Kaminski (in memorian), Tereza Zenaide Gabardo, Antônio Ricardo Pelanda e João Romário Pelanda.
Ela chegou ao bairro ainda na primeira infância, adotada por Domingos Baldan, que hoje dá nome a uma rua do bairro, e mora com o filho João Romário Pelanda na Villa Júlia, o vistoso casarão construído em 1934 pelo pai adotivo na Rua Ângelo Burbello.
Domingos Baldan, pai de dona Maria de Lourdes. Pioneiro, construiu a casa em que ela mora até hoje. Foto: Reprodução/Arquivo pessoal
Dona Maria de Lourdes Pelanda virou uma espécie de referência no Umbará dos anos passados e um dos motivos principais é explicado porque ela dominava a técnica de aplicar injeções. Quando alguém precisava tomar um medicamento, logo lembrava dela.
Ela também era conhecida pela coragem. Era das poucas moradoras que conseguia preparar os defuntos para velórios.
“Fiz muitas amizades e travei muito conhecimento aqui no Umbará aplicando injeção nos doentes e lavando os defuntos para o velório. Morria alguém, vinham me chamar porque não sabiam o que fazer. Eu lavava e vestia o defunto para colocar na sala para o velório e rezava pela alma do falecido”, relembra dona Maria de Lourdes.
OUÇA AQUI
Maria de Lourdes Pelanda, moradora.
Antepassados da família na Itália em foto, provavelmente, do século XVIII. Foto: Reprodução/Arquivo pessoal
Amor pelo bairro
Olhando para o passado, a moradora constata como as coisas mudaram e quantas dificuldades foram superadas, tornando a vida melhor.
“Antes o Umbará não tinha nada quase. Agora virou quase uma cidade, tem asfalto e iluminação. Antigamente era muita poeira, tudo era longe e tinha muito barro. Saía para rua, voltava rebocado de barro”, relembra.
Instalada no confortável e acolhedor casarão, dona Maria Lourdes não quer nem ouvir falar em se mudar. “Fui criada aqui e tenho muito amor por este lugar. Não troco o Umbará por nada desse mundo”, setenciou.
União das famílias superava as dificuldades
O amor pelo lugar e a união dos moradores são a chave para compreender a formação do bairro. A dona Brígida Moletta relembrou como a comunidade era aguerrida.
“As famílias eram muito unidas na época. Quando tinha uma colheita para fazer, todo mundo ajudava. No tempo da erva-mate, quando fazia o sapeco da planta depois tinham os bailes muito animados e era ali que muitos casamentos se realizavam”, disse.
OUÇA AQUI
Brígida Moletta, moradora.
Construção de igreja e colégio: um marco no bairro
A união dos moradores também foi fundamental para construção da igreja do Umbará, a Paróquia São Pedro, projetada pelo famoso arquiteto João de Mio e que teve participação ativa de Irineu Samuel Moletta, marido da dona Brígida, que atuou na edificação da torre. Recentemente, a igreja recebeu nova iluminação cênica para valorizar a arquitetura do templo.
Foi assim também com o Colégio Estadual Padre Cláudio Morelli (nome atual), a primeira instituição de ensino formal da região. Para animar o trabalho na torre da igreja, seu Irineu e o pessoal da obra carregavam as baterias dos rádios no moinho movido à roda de água que existia no atual Parque Lago Azul. Muitos produtores também traziam milho para transformar em fubá no local.
Cúpula da torre, agosto de 1958, da esquerda para direita: Mino Pellanda, Irineu Samuel Moletta e Nelson Negrello. Foto: Reprodução/Arquivo pessoal
Vinícola no quintal de casa
A cultura de lavoura e frutas em grande escala ficou no passado do Umbará. Mas a tradição ainda persiste como exceção à regra. No quintal da casa de dona Brígida Moletta, as parreiras de uvas estão carregadas, quase prontas para a colheita. Um dos pés tem 90 anos de idade, foi plantado pela matriarca, e continua produzindo em larga escala.
Segundo Vani Moletta, a expetativa este ano é a de colher 900 quilos de uva, que já têm destino certo. Tudo será transformado em vinho para brindar a saúde da família e a do bairro Umbará.
Parreiras da Família Moletta estão carregadas. Foto: Hully Paiva/Secom