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Por trás do crachá

Meia hora e quatro emergências: o dia a dia de um médico na UPA Boa Vista

Na rotina imprevisível da Unidade de Pronto Atendimento da Prefeitura, o médico Ricardo Kaufmann encontrou sua verdadeira vocação, há 22 anos

Em 24 anos de medicina, Ricardo Leandro Kaufmann, há 22 anos veste o jaleco na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Boa Vista. Curitiba, 19/06/2026. Foto: Levy Ferreira/SECOM

Texto: Millena Lechtchechen (supervisão de Roberto Couto)
Prefeitura de Curitiba

Em 24 anos de medicina, Ricardo Leandro Kaufmann, 50 anos, passou quase toda a carreira na mesma unidade da Prefeitura de Curitiba. Há 22 anos veste o jaleco na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Boa Vista, uma das mais procuradas da Secretaria Municipal da Saúde (SMS).

Formado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) em 2002, especializou-se em geriatria, serviu ao Exército e atuou na Região Metropolitana. Mas foi na rotina imprevisível da UPA que encontrou sua verdadeira vocação.

Eu entrei aqui no dia 8 de abril de 2004. É como se fosse ontem. Eu lembro bem o meu primeiro plantão, eu lembro bem a dinâmica. Ninguém trabalha há 22 anos em um serviço que não gosta", afirma Kaufmann.

Para o médico, o que faz a UPA ser tão especial é justamente o fato de que nenhum dia se parece com o outro. Cada plantão é uma nova história, um novo desafio e uma nova oportunidade de salvar vidas. 

"Não me deixa envelhecer tão rápido. Sou posto à prova a cada pouquinho. É onde eu tenho paixão pela coisa, onde sinto que faço a diferença", revela.


Meia hora, quatro urgências

Os dias nas UPAs não têm roteiro, o plantonista nunca sabe o que está por vir no começo de um dia e isso marcou uma das situações mais memoráveis para o médico, que narra com precisão: “12h10 chegou um paciente psiquiátrico, agressivo. 12h20 deu entrada um paciente com um corte, uma lesão arterial, sangrando um monte. 12h30, paciente com anafilaxia, um quadro alérgico. 12h40, uma mulher parindo. E foi assim que, em questão de meia hora, eu atendi psiquiatria, trauma, clínica médica e ainda fiz um parto”, relembra.

Em mais de duas décadas de trabalho, ele criou com a equipe uma relação especial, que ele afirma estar além de apenas palavras. “O médico é uma das engrenagens e se qualquer engrenagem não funciona, o sistema não anda. Às vezes você está numa situação de emergência e só com um olhar de canto, o colega que conhece a dinâmica de trabalho já te entende.”

Mais que médico

Por trás do crachá, Ricardo é um orgulhoso marido e pai de dois filhos. Reservado e religioso, sua válvula de escape é o tempo de qualidade com sua família. “Eu gosto muito da dinâmica de família, de estar junto, de viver. Então, saindo da profissão, sou 100% família. E essa é a minha visão, a minha dedicação”, conta.

Ele também vê no seu dia a dia um espaço para praticar a sua fé, passando para seus pacientes o sentimento de compromisso maior em situações de incerteza. “Você tem que trazer a palavra. Você tem que trazer o que Deus nos ensina. Na área de saúde, é onde você vê a pessoa no momento de fragilidade. E é nesse momento que você tem que mostrar que tem algo maior”, diz. 

Unidades de Pronto Atendimento

Na entrada da UPA, aparecem casos de todos os tipos, que não são atendidos por ordem de chegada e, sim, a partir da análise da gravidade e urgência clínica do caso. O sistema de triagem que determina isso é o Protocolo de Manchester, que classifica pacientes em serviços de urgência por cores, determinando a prioridade e o tempo máximo de espera com base na avaliação clínica. A escala vai do azul para casos menos urgentes, até vermelho para casos de emergência. 

“Nenhum paciente vai deixar de ser atendido. A diferença é a gente poder classificar e atender primeiro quem é mais urgente e na sequência atender os que não são tão urgentes. O paciente vai sim ser atendido, mas dentro do tempo que precisa vir para ele”, finaliza o médico.

A diretora do Departamento de Urgência e Emergência da Secretaria Municipal de Saúde, Ester do Nascimento Ribas, destaca ainda que para o pronto atendimento dar conta da demanda de uma das maiores cidades do Brasil, a união entre todas as equipes de saúde responsáveis é indispensável e o trabalho vai muito além apenas do tratamento imediato. 

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“Em poucos minutos, nossas equipes mergulham na história, nas dores e na complexidade de cada ser humano. Somos nove UPAs que recebem pessoas 24 horas por dia, 7 dias por semana, entregando saúde, acolhimento e esperança. Diariamente, nós estudamos, discutimos casos e aprimoramos nossos processos. Fazemos isso com um único propósito: transformar a saúde e cuidar, de verdade, da população de Curitiba”, completa Ester.