Texto: Roberto da Silva Couto
Secretaria Municipal da Comunicação Social (Secom)
É improvável que qualquer pessoa que more em Curitiba não tenha ao menos uma história relacionada ao calçadão da Rua XV de Novembro, no Centro. Afinal, são 54 anos de história desta revolucionária intervenção urbana, a primeira via exclusivamente de pedestre do Brasil, criada pelo ex-prefeito e governador Jaime Lerner (1937-2021) no dia 19 de maio de 1972.
“O calçadão da Rua XV, que nesta terça-feira (19/5) celebra seus 54 anos, é um símbolo da Curitiba inovadora, humana e visionária que ajudou a inspirar cidades em todo o Brasil e no mundo. Essa obra histórica de Jaime Lerner segue viva no cotidiano dos curitibanos, tornou-se um cartão-postal e reafirma a capital como referência em soluções urbanas criativas e sustentáveis”, destaca Eduardo Pimentel.
Prefeito Eduardo Pimentel inaugurou, em março de 2026, a estátua de Jaime Lerner no calçadão da Rua XV.
O prefeito lembra ainda que a criação do calçadão da Rua XV, há mais de cinco décadas, também é inspiração para o programa Curitiba de Volta ao Centro, lançado pela gestão em 2025. “Em 1972, esta intervenção urbana ajudou a devolver vida e movimento ao Centro da cidade, atraindo moradores, turistas e novos investimentos. Hoje, com as ações do programa, buscamos promover um novo redesenvolvimento para a região central”, justifica Eduardo Pimentel.
Fechamento da Rua XV de Novembro no dia 19 de maio de 1972.
Caminho diário
Morando e trabalhando no Centro, o casal Katiusce Ritter, 40 anos, e Ilton Augusto Pereira, 42 anos, é exemplo de que o calçadão realmente faz parte da rotina diária de quem vive em Curitiba. “Além de percorrermos boa parte da Rua XV para irmos ao escritório, na vizinha Rua Marechal Deodoro, passeamos, tomamos um café, saímos com os filhos e resolvemos coisas do dia a dia”, observa Katiusce, que mora com o marido na Rua Riachuelo.
Ilton afirma que o calçadão tem um charme único, como nenhum outro lugar em Curitiba, por reunir história, comércio e convivência em um só lugar. “Não consigo nem imaginar como era com os carros passando. Percorrendo a Rua XV, a gente aprecia prédios antigos e pode fazer compras nas lojas ou seguir para outras partes do Centro, como o Largo a Ordem e Passeio Público”, acrescenta ele.
Katiusce Ritter e Ilton Augusto Pereira e dois cartões-postais da Rua XV: Bondinho da Leitura e Palácio Avenida.
Comércio vivo
Espalhados ao longo do mais famoso calçadão do país, comerciantes acompanham diariamente o movimento de moradores e turistas.
Permissionários de uma das nove bancas do calçadão da XV, Jessica e Urubatan Gaia são proprietários da Floricultura Gaia, desde 1981. “São 45 anos de uma relação próxima com muitos fregueses que moram ou trabalham perto da Rua XV. As pessoas vêm em busca de um presente ou de algo bonito e natural para decorar a casa ou o escritório. A gente passou a ser referência por estar aqui no calçadão há tanto tempo e muitos clientes conhecemos pelo nome”, conta Urubatan.
Jessica e Urubatan Gaia são proprietários da banca de flores no calçadão da Rua XV.
Uma referência histórica do calçadão é a Confeitaria das Famílias, presente na Rua XV há 81 anos. O estabelecimento, inaugurado em 1945, atravessou gerações acompanhando as transformações da via e do Centro. “Recebemos gerações de curitibanos, famílias inteiras vêm tomar café e saborear nossos doces e salgados, e também os turistas que visitam Curitiba e querem conhecer o calçadão da XV e a nossa confeitaria”, salienta Ederson Adancheski, gerente há 29 anos do estabelecimento, famoso por ter criado a torta Marta Rocha.
Ederson Adancheski gerencia um das tradições da Rua XV: a Confeitaria das Famílias.
Paulo Cordeiro e o famoso cachorro quente do Bar Mignon, outra tradição da Rua XV.
Com 100 anos de história, o Bar Mignon também é testemunha da importância do calçadão para a economia do bairro e para a memória urbana de Curitiba. “Aqui no Bar Mignon, o freguês vive uma experiência bem curitibana. Moradores e visitantes podem se sentar nas mesinhas ao ar livre, sob as coberturas do tempo do fechamento da XV, e saborear nossos clássicos cachorro quente ou sanduíche de pernil”, observa Paulo Cordeiro, gerente e proprietário do estabelecimento, aberto em 1925, citando um dos marcos urbanos do calçadão: as características estruturas de acrílico roxo que fazem parte do mobiliário urbano implantado nos anos 1970.
História e curiosidades do calçadão da Rua XV de Novembro
- No anoitecer do dia 19 de maio de 1972 (sexta-feira), equipes da Prefeitura de Curitiba desembarcaram de caminhões para implantar o calçadão na Rua XV de Novembro, entre a Rua Presidente Faria e a Praça Osório.
- O calçadão da Rua XV de Novembro foi projetado pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc) para ser o eixo de circulação da área central com o Setor Histórico e o sistema de transporte coletivo: atualmente, praças e vias do entorno são pontos de partida e chegada de ônibus convencionais e BRTs (Praças Rui Barbosa, Tiradentes, Zacarias, Santos Andrade e Senador Correia, Travessa Nestor de Castro e as estações-tubo da Avenida Sete de Setembro e das ruas Presidente Faria e Visconde de Nacar).
- O calçadão da Rua XV de Novembro, com seus característicos pavimento em petit-pavê, postes republicamos, bancos e floreiras, é um patrimônio tombado como “Paisagem” por lei estadual do Paraná desde 1974. Qualquer intervenção precisa de aprovação do Patrimônio Histórico.
- Em 1984, o calçadão da Rua XV reuniu cerca de 40 mil pessoas no comício das Diretas Já, campanha pelas eleições diretas para presidência da República, abrindo caminho do processo de redemocratização do país.
- Assim como o próprio calçadão, outros cartões-postais se espalham pela via de pedestres: Bondinho da Leitura, Palácio Avenida (com seu famoso coral de Natal), Edifício Moreira Garcez (primeiro “arranha-céu de Curitiba”) e relógio alemão de 1914.
- No encontro do calçadão da Rua XV e Avenida Luiz Xavier, está a Boca Maldita com tradicionais cafés e bancas. O nome deste trecho do Centro remete à confraria organizada por um grupo de homens em 1956 e que virou ponto de encontro para discutir política e futebol.
- Os inúmeros prédios históricos do calçadão da XV merecem ser apreciados pelos diferentes estilos arquitetônicos (eclético, neogótico e art noveau), com destaque para a construção neogótica, de 1905, na esquina com a Rua Monsenhor Celso (popularmente conhecida como Edifício Banestado) e a antiga Casa Louvre, de 1913 e em estilo art noveau, restaurada após um incêndio e que hoje abriga uma loja de roupas femininas entre a Rua Monsenhor Celso e Avenida Marechal Deodoro.
- Além da escultura em homenagem a Jaime Lerner, inaugurada pelo prefeito Eduardo Pimentel em 2026 e de autoria do escultor Elvo Benito Damo, o calçadão tem outras obras de arte, como a estátua de Enedina Alves Marques (primeira mulher negra a se formar engenheira), obra de Rafael Sartori, e o painel do Barão do Serro Azul, do artista Gardpam, na fachada da sede da Associação Comercial do Paraná (ACP).
- Diariamente, equipes da Limpeza Pública da Secretaria Municipal do Meio Ambiente fazem a varrição ou a lavagem do calçadão da Rua XV, serviços da Prefeitura que estão alinhados ao programa Curitiba de Volta ao Centro.
- Durante a programação do Natal de Curitiba, o calçadão da Rua XV recebe atrações muito aguardadas pelo público. Na edição de 2025, os destaques ficaram para a roda-gigante e decoração do Natal O Boticário na Rua XV e a tradicional feira na Praça Osório.
- Desde 2025, o calçadão da Rua XV recebe o evento Domingo no Centro, com atividades e serviços gratuitos para toda a família uma vez por mês. A edição de maio do evento, que integra as ações do programa Curitiba de Volta ao Centro, ocorre no próximo domingo (24/5).