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Por trás do crachá

Enfermeira destaca a importância do acolhimento para pacientes de saúde mental

Com uma rotina de atendimento a pacientes em situação de crise aguda, a enfermeira Patrícia de Lima fala dos desafios enfrentados na profissão

A enfermeira Patrícia de Lima trabalha na Unidade de Estabilização Psiquiátrica Irmã Dulce. Curitiba, 07/04/2026 Foto: Levy Ferreira/SECOM

A enfermeira Patrícia de Lima iniciou a carreira na Fundação Estatal de Atenção à Saúde (Feas) em 2021, na Unidade de Estabilização Psiquiátrica (UEP). Assumir uma vaga na psiquiatria, sem ter trabalhado diretamente com saúde mental anteriormente, foi um desafio. Com o passar do tempo, ela entendeu que o tratamento vai muito além dos medicamentos. “Há usuários que gostam do toque. Em algum momento em que ele está mais fragilizado, ou que às vezes está mais choroso, dependendo da situação. Isso a gente tem que proporcionar para o usuário”, afirma.

Em seus cinco anos de experiência na área, ela descobriu a importância dos pequenos gestos. O ato da escuta, no qual o profissional se coloca em uma conversa de igual para igual e se mostra genuinamente interessado, faz toda a diferença. 

“Quando a gente vai atender um usuário de saúde mental, a gente tem que se ater a todos os detalhes. Só assim, quando eu vou fazer o atendimento, dependendo de como eu chego, ele vai realmente se abrir ou não”, diz.

Além do trabalho diretamente ligado ao paciente, os profissionais da saúde precisam entender e preparar todo o seu grupo familiar. Para Patrícia, esse é um obstáculo à parte. “A família também precisa entender a complexidade do tratamento de saúde mental, e que não é uma frescura quando existe qualquer vício, não só de droga”, diz.

Durante os 15 anos de sua carreira, Patrícia acompanhou diversos pacientes, mas algumas histórias marcaram sua vida. Entre elas, destaca a de uma gestante dependente química que deu entrada na UEP acompanhada da mãe. De início, a jovem apresentava comportamento agressivo, mas com dois meses de tratamento, a vida dela foi mudada. “Um pouco antes de ela ir embora, ela tinha entendido, compreendido, que precisava fazer o tratamento. Ela aceitou o cuidado, aceitou ir para o Caps. Ela queria cuidar da filha dela”, relembra.

Antes de receber alta, a equipe da UEP preparou um chá de bebê para a paciente, com direito a enxoval e pintura na barriga. Uma semana antes do parto, a jovem foi para casa com sua família. “Ela pediu desculpas pelas atitudes dela, porque ela falava que não conseguia enxergar. E que foi importante a gente ter insistido nela. Então, a gente vê que o nosso serviço valeu a pena, sabe? Ela mora próximo ali da nossa unidade e já foi lá levar o bebê para a gente conhecer”, diz.

Em casos como esse, Patrícia vê o poder do trabalho da equipe de saúde mental e a materialização de um propósito que vai muito além da técnica. Para a enfermeira, cada história de superação que atravessa as portas da unidade é a prova de que, com acolhimento e persistência, é possível resgatar não apenas a saúde, mas a dignidade e a esperança de quem muitas vezes já não conseguia enxergar um novo caminho.