A Camerata Antiqua de Curitiba viveu, na tarde desta sexta-feira (23/1), um dos momentos mais emblemáticos de seus mais de 50 anos de trajetória ao se apresentar na Basílica Papal de Santa Maria Maior, em Roma, na Itália. O concerto, realizado durante uma missa solene em língua portuguesa, marcou um ponto culminante na história do grupo e consolidou a turnê italiana como a mais significativa já realizada pela Camerata até o momento.
A apresentação integrou oficialmente as celebrações pelos 200 anos das relações diplomáticas entre o Brasil e a Santa Sé, estabelecidas em 1826. A escolha da Camerata Antiqua de Curitiba, vinculada à Fundação Cultural de Curitiba (FCC), feita pela Embaixada do Brasil junto à Santa Sé, reafirma o papel do conjunto como um dos mais importantes grupos musicais do país.
O concerto reuniu autoridades brasileiras e internacionais, fiéis e peregrinos de diferentes partes do mundo, em uma celebração que aliou diplomacia, fé e cultura. O prefeito de Curitiba, Eduardo Pimentel, acompanhado da primeira-dama, Paula Mocellin, disse que a apresentação mostrou o alcance internacional da cultura produzida na capital paranaense.
“Essa apresentação do coro e da orquestra completos da Camerata abrilhantou um momento muito importante. É uma forma de fortalecer a relação entre o Brasil e o Vaticano por meio da cultura, feita por Curitiba, pelas pessoas da nossa cidade e pela nossa orquestra de câmara. Estou muito feliz em estar presente e em poder proporcionar isso à Camerata, à nossa cidade e ao país”, afirmou o prefeito.
Celebração solene no coração do Vaticano
A missa foi celebrada pelo cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, e reuniu mais de 100 concelebrantes, além da presença de seis cardeais. Entre eles, destacou-se o cardeal português José Tolentino de Mendonça, prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação, órgão responsável pelas diretrizes culturais da Santa Sé.
Durante a homilia, Parolin destacou o significado histórico da data e da relação entre o Brasil e a Igreja Católica. “Em dois séculos de relações com a Santa Sé, o Brasil não encontrou na Igreja uma potência estrangeira, mas uma companheira de viagem.”
Também esteve presente o arcebispo de Curitiba, Dom José Antônio Peruzzo, reforçando os vínculos institucionais, culturais e religiosos que marcaram a ocasião. “Curitiba ficou lá, mas também veio até aqui. Roma chega a Curitiba por meio da linguagem da arte. A fé, quando se torna linguagem artística, nos faz próximos, vizinhos e irmãos. Que a Camerata volte muitas vezes a um lugar como este, como um presente carregado de promessas para o futuro.”
A cerimônia contou ainda com a presença do secretário de Estado do Desenvolvimento Sustentável do Paraná, Rafael Greca; da secretária de Estado da Cultura do Paraná, Luciana Casagrande; do presidente da Fundação Cultural de Curitiba, Marino Galvão Júnior; da diretora-executiva do Instituto Curitiba de Arte e Cultura (Icac), Juliana Midori; do assessor-chefe de Relações Internacionais e chefe do Cerimonial da Prefeitura de Curitiba, Rodolpho Zannin Feijó; do reitor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Irmão Rogério Mateucci; e de João Sarolli, representante da Via Araucária, uma das patrocinadoras da turnê.
Concerto para o Brasil e para o mundo
A apresentação teve repercussão mundial. A correspondente internacional Cinthia Rodrigues acompanhou a cerimônia no Vaticano e destacou a excelência do grupo. “Pude conferir a apresentação da Camerata Antiqua aqui no Vaticano, onde os corais que acompanham as missas são sempre maravilhosos. E, mesmo assim, a Camerata realmente deu um show.”
Com a basílica aberta à visitação durante a celebração, fiéis e turistas de diversas nacionalidades circularam pelo espaço e acompanharam a missa. A italiana Maria Serena Fellici, professora de português brasileiro, esteve presente para acompanhar a celebração em língua estrangeira e saiu profundamente impactada.
“Foi a primeira vez que participei de uma celebração em português aqui. É realmente muito especial. A música não fica atrás em nada das grandes orquestras europeias.”
A transmissão ao vivo pela Vatican News em português levou a música da Camerata Antiqua de Curitiba a uma audiência global, alcançando mais de 5 mil pessoas em apenas uma hora de exibição. Do Brasil, espectadores acompanharam a celebração em tempo real.
“Foi emocionante, um orgulho imenso reconhecer a música que ouvimos aqui na cidade, já ouvi na minha igreja, agora ocupando um lugar tão central no mundo.”, disse Monique Marlageon, que comentou nas redes sociais da Fundação Cultural de Curitiba.
Regência, solistas e excelência artística
Formada por Coro e Orquestra, a Camerata Antiqua de Curitiba foi conduzida pelo maestro e musicólogo Ricardo Bernardes, brasileiro radicado em Portugal e reconhecido como especialista em práticas historicamente informadas e referência no estudo da música luso-brasileira.
Os solistas foram Marília Vargas e Ana Spadoni (sopranos), Filipe Rissatti (contratenor), Jabez Lima e Maico Sant’Anna (tenores), além de Norbert Steidl e Claudio De Biaggi (barítonos).
O programa foi concebido para a apresentação no Vaticano e teve como eixo central a música sacra brasileira do início do século XIX, período ligado à história das relações entre o Brasil e a Igreja Católica. O repertório destacou a obra de José Maurício Nunes Garcia (1767–1830), um dos principais nomes da música colonial brasileira e figura central da vida musical do Rio de Janeiro no período joanino.
O programa incluiu ainda In Te Domine Speravi, de Sigismund Neukomm, compositor austríaco que atuou no Brasil e cuja obra foi apresentada no Rio de Janeiro em 1818.
Continuidade da turnê em Roma
Após a apresentação histórica no Vaticano, a Camerata Antiqua de Curitiba dá continuidade à turnê italiana com novos compromissos na capital italiana. O grupo se apresenta neste sábado, dia 24 de janeiro, às 17h30, na Aula Magna da Universidade La Sapienza, uma das mais importantes instituições acadêmicas da Europa, e encerra sua passagem por Roma no dia 27 de janeiro, às 20h, com um concerto na Embaixada do Brasil em Roma.
A turnê da Camerata Antiqua de Curitiba em Roma foi realizada a convite da Embaixada do Brasil junto à Santa Sé e viabilizada por meio da Lei Rouanet. O projeto contou com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, patrocínio da Editora FTD e da Via Araucária, além do apoio cultural do Supermercado Festval.