Quem acompanha alguma das atividades de educação ambiental no Zoológico de Curitiba sob o comando da servidora Claudia Bosa se encanta com o seu vasto conhecimento sobre a riqueza da fauna, os cuidados que a equipe do Meio Ambiente tem e a importância de todos conhecerem as informações para que possam cuidar e defender os animais.
A bióloga, que já alfabetizou crianças e adultos e foi professora do ensino fundamental na rede municipal de ensino, trabalha desde 2001 no Zoológico. Hoje ela coordena a equipe de educação ambiental da unidade, chamada Divisão de Educação para Conservação da Fauna.
"Desde criança, sempre sonhei em trabalhar no Zoológico. Mas não sabia que sendo professora municipal isso poderia acontecer um dia. Eu trabalho e me divirto numa atividade que nunca tem rotina, do jeito que eu gosto", conta. A professora diz que, para isso, muitas pessoas boas passaram pelo seu caminho e a ajudaram a realizar o sonho que ela nem sabia que seria possível.
A paixão pelo Zoológico começou quando a unidade foi inaugurada, na década de 1980. Claudia tinha aproximadamente 8 anos de idade e um dos passeios favoritos era ir ao Zoo, que ela queria frequentar todo fim de semana.
Claudia chamou a atenção quando participou do desafio proposto pela turma da 2ª série (hoje seria o 3º ano) do CEI Carlos Drummond de Andrade. As crianças queriam conhecer um pepino-do-mar, animal marinho que vive na água do mar. Elas deixaram uma carta para Claudia, que era professora da educação de jovens e adultos da escola, mas conhecia muito de Ecologia Marinha.
Claudia preparou para as crianças uma surpresa na sala de aula. Ela não apenas apresentou um pepino-do-mar ao grupo, como acompanhou a turma até o litoral para devolver a espécie ao habitat. A experiência foi amplamente divulgada na cidade.
Acantonamento é um marco para crianças que visitam o Zoo
A menina dos olhos da professora é o acantonamento, atividade que é desenvolvida desde 1991 e que abre as portas do Zoológico para que crianças do quinto ano (de 9 a 12 anos) possam passar o fim de semana e explorar o espaço em atividades dirigidas. A programação dura pelo menos 32 horas. Já foram realizados 825 acantonamentos. Deste total, Claudia acompanhou pelo menos 300, com a participação de aproximadamente 12 mil pessoas.
A Casa de Acantonamento é reservada para as principais atividades e guarda diversas lembranças de quem já esteve no local. O espaço é cercado por árvores que foram plantadas pelas crianças que passaram pela atividade. E tudo é cuidadosamente preparado a cada novo grupo que vai chegar. Os utensílios são higienizados, o espaço é decorado e materiais para as atividades de educação ambiental são preparados.
Sua alegria é ver quando chega alguém que esteve no local quando criança. "Corro para procurar o registro da visita que aquela criança fez. Temos estagiários que visitaram quando eram crianças, professores que fazem questão de trazer seus alunos porque vieram quando eram crianças, gente que escolheu estudar as áreas relacionadas à fauna. É por isso que esse trabalho não vai acabar", defende.
Transformação
As escolas que proporcionam o acantonamento fazem relatos surpreendentes depois da atividade, que inclui trilhas, visita noturna e cerimônia do fogo, entre outras. "Eles nos dizem: vocês não imaginam o que acontece depois das visitas". Os professores também se transformam. "Quem passa por esta atividade, vai ser um professor diferente depois", declara. Claudia lembra ainda que a relação entre os participantes costuma mudar, pois o contato entre alunos e professores se intensifica.
A experiência de cada escola é relatada com textos, documentada com fotos das crianças, desenhos, assinaturas dos participantes em cadernos e álbuns. Em meio a tantas lembranças, lá também está a foto do primeiro acantonamento, dia 9 de novembro de 1991, que teve a presença do então prefeito Jaime Lerner e do então deputado estadual Rafael Greca, hoje, prefeito de Curitiba.
Visitantes fazem descobertas e aprofundam conhecimento
Claudia Bosa avalia que falar de educação ambiental simplesmente é menos do que o que a sociedade precisa hoje. "Trabalhamos educação ambiental com viés socioambiental, ou seja, todos nós fazemos parte da natureza", declara.
A educadora conta que nas atividades com crianças de 9 a 12 anos é comum que, quando perguntados para que servem os frutos das árvores, elas respondam simplesmente que é para nosso consumo. "Quando fazem um desenho, ainda é romantizado. Recebemos crianças que quando veem uma galinha não a reconhecem e perguntam que bicho é esse. É chocante", detalha. "Nós tentamos desconstruir isso para que as crianças entendam o seu papel".
Ao comparar a educação ambiental de quando começou a trabalhar no Zoológico com o que se faz hoje, ela observa que as pessoas mudaram muito. "As crianças têm muita informação, mas na verdade não têm. Tudo é muito superficial. Antes, era mais fácil ensinar educação ambiental", avalia.
Claudia Bosa observa ainda que os professores também precisam de mais conhecimento. "Percebo que muitos não identificam os bichos brasileiros. Quando falamos do aquecimento global, pensam no urso polar, mas não sabem sobre os sapos, que têm espécies ameaçadas devido ao aquecimento global", declara.