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Eu sou Curitiba

Montanhista há 40 anos, servidor da Prefeitura fala dos encantos que as belezas da natureza podem despertar

O servidor e montanhista Tarquino Luis Mota na Bolívia. Foto: Arquivo Pessoal/Tarquino Luis Mota

Texto: Fabiana Fernandes
Secretaria Municipal da Comunicação Social

Difícil dizer quantas montanhas, cachoeiras, cavernas e céus estrelados foram vistos e admirados, quantos quilômetros percorridos, quantas pessoas conheceu mundo afora. O arquiteto Tarquino Luis Mota, 58 anos, é servidor da Secretaria do Meio Ambiente da Prefeitura de Curitiba desde 2003 e, há mais de 40 anos, encontrou no montanhismo um jeito particular de viver a vida, com espaço para estar sempre perto das belezas naturais e realizar sonhos.

“Quando eu tinha 11 anos, vi uma foto de Machu Picchu, no Peru, em um livro. Eu pensei: um dia eu vou nesse lugar”, contou. E foi mesmo.


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Tarquino Luis Mota em Machu Picchu. Foto: Arquivo Pessoal/Tarquino Luis Mota

A iniciação para a prática das caminhadas longas aconteceu aos 16 anos quando, a convite do irmão Toninho. Os dois jovens e um grupo de amigos visitaram a Montanha do Marumbi, em Morretes, no Paraná, atual Parque Estadual Pico do Marumbi.

“Nós erramos o caminho daquela trilha que hoje é fechada (Frontal do Gigante). A gente se perdeu, mas não enfrentamos mata fechada. Depois achamos outro caminho. Não foi nenhum trauma, pelo contrário, a gente saiu de lá e queríamos fazer de novo”, lembra.

Desde esse dia, o Marumbi ganhou seu coração. “A nossa Serra do Mar, a região do Pico Paraná e a Serra do Marumbi são lugares para onde eu sempre quero e preciso voltar. O cheiro dos dormentes, a estação Marumbi, o Rio Taquaral, as trilhas ao Olimpo, Ponta do Tigre, Abrolhos”, detalha.

Ele acrescenta que não imagina qualquer viagem se não puder explorar, além da cidade, as belezas naturais que houver por perto. “Uma viagem só de cidades fica faltando a montanha”, diz. E lembra que Curitiba é uma cidade privilegiada pelas opções de passeios ao seu redor.

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Montanhista e servidor Tarquino Luiz Mota.

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Pandemia e redes sociais

Para Tarquino, o interesse das pessoas por passeios em montanhas e cachoeiras cresceu durante a pandemia do coronavírus. “As pessoas ficaram muito tempo presas em casa. Viram a importância de fazer exercícios, tomar ar e de ter mais contato com a natureza”, analisa.

As redes sociais também contribuem para a disseminação de informações – nem sempre verdadeiras sobre os caminhos e lugares que existem.

Ele afirma que uma trilha considerada fácil para determinada pessoa pode não ser para todos. “É necessário estar bem preparado fisicamente e ter conhecimento para fazer uma boa caminhada. Estar acompanhado de alguém que já conhece aquele caminho também é uma forma mais segura de praticar. É preciso ser prudente”, declara.

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Montanhista e servidor Tarquino Luiz Mota.

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Experiência, segurança, informação

Segundo Tarquino, conhecimento faz toda a diferença. “E os clubes de montanhismo existem justamente para ajudar quem quer se aventurar em passeios como estes. Eles oferecem informação de qualidade. Promovem atividades que reúnem pessoas experientes, que relatam a sua vivência. Ensinam, por exemplo, como ler um mapa, usar a bússola, o GPS, e até como preparar a alimentação, sem ser só à base de macarrão instantâneo”, brinca.

Confira alguns dos clubes:

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Montanhista e servidor Tarquino Luiz Mota.

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Também existem publicações que podem auxiliar quem quer aprofundar seus conhecimentos.

Quanto aos equipamentos, ele avalia que nem sempre é necessário o melhor calçado, o agasalho e a mochila com mais tecnologia, uma barraca ou saco de dormir reforçados.

“Quando comecei, a gente ia com o que tinha. Não havia bota impermeável para comprar facilmente. As pessoas podem começar com o que elas têm, sem grandes investimentos. Independentemente dos recursos, se você tem vontade de ir, vá”, incentiva.

Ele aponta ainda a importância do período de aclimatação, especialmente em lugares com altitude elevada. Ressalta que cada um deve reconhecer os seus próprios limites físicos.

“Às vezes temos que negociar com o nosso cansaço. Em algumas situações é preciso ter menos conforto e ganhar agilidade. O montanhismo é também sobre prioridades, escolhas, mudança de planos e autoconhecimento, além de questões fisiológicas que podem surgir e que não dependem apenas de um bom preparo físico”, avalia.

Tarquino lembra ainda a importância de sempre avisar alguém quando for subir alguma montanha ou explorar outras belezas naturais.

O montanhista conta que já participou das equipes de voluntários que auxiliam em resgates de excursionistas perdidos ou atrasados, na região do Parque Estadual Pico do Marumbi, como voluntário do Corpo de Socorro em Montanha (Cosmo).

Ver com os “próprios” olhos

A realização do sonho de menino foi em 1988. E foi tão marcante que no ano seguinte, ele voltou. Tarquino já esteve no Peru dez vezes.

“É bom ‘ver com as mãos’, tocar os lugares que um dia só vimos nos livros”, resume. “As pessoas não deveriam se contentar em ver pela televisão os lugares ou coisas que lhes são importantes, ou que por algum motivo lhes chamam atenção. É necessário ir, estar lá, ver com os próprios olhos. Uma amiga disse uma vez que ‘os lugares só existem quando estamos neles’. É a mais pura verdade”, diz.


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Caminho Inca a Machu Picchu. Foto: Arquivo Pessoal/Tarquino Luis Mota

“Machu Picchu me marcou também por ter sido a primeira viagem mais longa, a primeira fora do país, e por terra, onde a interação com as pessoas e os lugares é muito mais intensa. Porque a viagem é lá, mas é também o caminho até lá, com todas as dificuldades e desconfortos.”

“Fazendo o Caminho Inca até Machu Picchu, você encontra os descendentes dos incas, as línguas quéchua e aymará, toda a arquitetura desses povos no caminho, e você entra na cidade pela porta que eles mesmos usavam há 500 anos”, detalha.

Aonde ir

Na avaliação de Tarquino, que já praticou o montanhismo mundo afora, os trekkings na América do Sul estão entre os mais lindos do mundo. “No Peru, Bolívia ou Argentina, você encontra verde e vida acima dos 4.000m de altitude. Já vi condores, lebres, corujas. Existem pumas também, mas esses não cheguei a ver”, detalha.

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Circuito Cordilheira Huayhuash. Foto: Arquivo Pessoal/Tarquino Luis Mota

“Seja a Cordilheira Huayhuash ou a Blanca, no Peru, ou o Parque Los Glaciares, na Argentina, ou Torres del Paine, no Chile, ambas nas Patagônias, para mim são incomparáveis. Estão aqui perto e são passeios muito mais baratos”, cita.

No Brasil, ele sugere Minas Gerais e suas colinas e cidades históricas. “Imagino que são, para nós daqui, mais ou menos o que são as cidades medievais para os europeus. Todo brasileiro deveria conhecer as cidades de Minas, principalmente Ouro Preto e Tiradentes. Mas existem muitas mais”, relata.

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Tarquino Luis Mota em Minas Gerais. Foto: Arquivo Pessoal/Tarquino Luis Mota

Também em Minas, no Vale do Peruaçu, atual Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, existem painéis rupestres, cavernas enormes e lindas, com florestas em seu interior. “Caminhando à noite, víamos o céu estrelado, de dentro das cavernas, pelas claraboias no teto.”

Ele conta que uma das travessias mais lindas que fez no Brasil foi a Serra Fina, na Serra da Mantiqueira. “Fizemos em três dias, o caminho passa por cerca de dez montanhas de mais de 2.500 m, entre elas algumas das mais altas do Brasil, como o Pico dos 3 Estados, que divide Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro (aproximadamente 2.660 m), e a Pedra da Mina, com 2.800 m.

Fez também a travessia Petrópolis-Teresópolis, a chamada Petro-Teres, com três dias de caminhada passando por várias montanhas. “Todo apaixonado por montanhas deveria fazer”, assegura.

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Travessia Petrópolis-Teresópolis. Foto: Arquivo Pessoal/Tarquino Luis Mota


Tarquino aponta ainda a Chapada Diamantina, conhecida como a “caixa-d´água da Bahia”, com trilhas da época do garimpo, cidades de pedra e tocas de garimpeiros. “Existem muitos lugares especiais, onde o povo é simples e hospitaleiro, e lá você entra em contato com uma das culturas mais ricas do Brasil.” Um dos seus próximos objetivos é a Serra da Capivara, no Piauí.

Ele também fez o trekking ao campo base do Everest, no Nepal (cerca de 12 dias de ida e volta). “Ver a montanha mais alta do mundo na sua frente é muito incrível. É também uma cultura bem diferente da nossa”, avalia.

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Trekking Campo Base Everest. Foto: Arquivo Pessoal/Tarquino Luis Mota

O arquiteto se impressionou com Lo Manthang, a capital do Reino de Mustang – uma cidade de mil anos, murada. “Caminhamos seis dias para ir e seis para voltar, passando por povoados típicos, de ruas estreitas, casas de pedra e mosteiros de monges budistas. Lá é Nepal, mas a cultura é mais tibetana.”

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Tarquino Luis Mota com sua esposa no Reino de Mustang, no Nepal. Foto: Arquivo Pessoal/Tarquino Luis Mota

E caminhou nos Estados Unidos e Europa. Muitas dessas viagens foram realizadas com a esposa, a arquiteta Madianita Nunes da Silva.

Parte da vida, não estilo de vida

A montanha mais alta foi alcançada em 2024, na Argentina, ao lado do Cerro Bonete Chico, com 6.700m. Mas esse não é o principal objetivo. Tarquino afirma que sempre gostou mais dos trekkings, as caminhadas curtas ou longas, em ambiente de montanha, que apesar do esforço e do cansaço, dão mais prazer do que desafio ou perigo.

“Em cada viagem ou passeio, curto ou não, difícil ou não, você encontra sempre pessoas interessantes, pessoas de trato fácil, que gostam da simplicidade das coisas, da natureza, do vento e do sol no rosto”, define. “E tem mais: quanto mais a gente conhece, mais a gente quer conhecer. Aquilo é parte da própria vida, não é apenas um estilo de vida.”