É noite, e o prato de arroz com pequi ajuda a animar a turma que frequenta as aulas de Educação de Jovens e Adultos na regional Cajuru. Mas a comida típica do estado de Goiás faz mais do que matar a fome: ao misturar os ingredientes, os alunos aprendem sobre medidas, conhecem um pouco da geografia e da história da região e tomam contato com a poesia da goiana Cora Coralina. A aula é um exemplo das estratégias adotadas na rede municipal de ensino para tornar a escola mais atrativa para jovens e adultos, e assim reduzir as desistências e ampliar a escolaridade desse público.
Os resultados têm sido muito positivos. Na regional Cajuru, ações simples e criativas adotadas por profissionais da EJA já resultaram na ampliação do número de matrículas. Desde o ano passado, duas novas turmas foram criadas – uma na Escola Municipal Professora Maria Marli Piovezan e outra na Escola Municipal Prefeito Linneu Ferreira do Amaral. Hoje, são 14 turmas de jovens e adultos na área de abrangência da regional. O trabalho também ajudou a incrementar o empréstimo de livros nas bibliotecas e no Farol do Saber.
O trabalho nas turmas de EJA da regional parte dos chamados “temas geradores” – linha instituída na metodologia do Núcleo Regional a partir de 2013 e adaptada do conceito de alfabetização por palavras geradoras do educador Paulo Freire. No início de cada ano letivo, os profissionais da EJA se reúnem com os estudantes para a escolha do tema gerador que melhor identifique o grupo e expresse a realidade deste.
A partir daí, o tema escolhido irá nortear os projetos e as atividades dentro e fora de sala de aula. “Se o estudante da EJA não se sentir atraído para as aulas, ele não permanece. Embora de modo geral sejam estudantes mais maduros, percebemos há alguns anos que nossa maior dificuldade era manter a atenção e o entusiasmo ao longo do ano”, informa Priscila Costa, pedagoga da Educação de Jovens e Adultos da Regional Cajuru. “Difícil não é entrar na EJA, mas permanecer”, acrescenta.
Nas turmas da EJA da Escola Municipal Linneu Ferreira do Amaral, o tema gerador escolhido para desenvolver em 2015 foi “Trabalho”. “Todos os componentes da matriz curricular e as disciplinas – Português, Matemática etc - estabelecem uma relação com esse tema. A partir da escolha, a equipe do Núcleo Regional montou um roteiro de atividades, com os conteúdos para levar às aulas”, explica a articuladora da Educação de Jovens e Adultos da escola, Cláudia Nunes.
Dentro desse tema, o assunto neste momento é a sustentabilidade. As turmas estão até montando um ambiente sustentável, com sofás e mesas feitas de garrafas pet e outros produtos recicláveis.
Além dos muros
Já foram realizadas na escola oficinas práticas, exibidos filmes e feitas apresentações de teatro na regional Cajuru. Uma vez por mês, a pedagoga Priscila Costa convida uma personalidade ligada ao assunto para dar palestras e transmitir conhecimentos nas chamadas “oficinejas”. “Sempre com o olhar para o que desperta o interesse do estudante, motivando-o a buscar mais, tirar proveito de cada atividade e continuar os estudos”, explica.
Em parceria com o Serviço Social do Comércio (Sesc), que fornece os instrutores, a pedagoga promoveu recentemente um curso de encadernação. Além de apresentar uma alternativa de geração de renda, o curso permitiu trabalhar conceitos da Matemática, como medidas, grandezas, o preço dos produtos, os cálculos de custos e lucro e o valor do trabalho (mão de obra) empregado na produção.
“A escola dessa forma tem mais sentido e mais significado para o estudante”, afirma Priscila.
Outro recurso utilizado é o caderno itinerante, que os alunos levam alternadamente para suas casas, com o propósito de debater com a família – e depois com a turma – os temas que estão sendo tratados, num processo de construção coletiva do conhecimento.
A EJA vai aonde o estudante está
Para estabelecer uma conexão com a realidade do aluno e fortalecer os vínculos com a escola, a pedagoga Priscila Costa e a articuladora das turmas noturnas da EJA na Escola Municipal Irati, Elaine Cristina de Jesus, visitaram e conheceram o local de trabalho do estudante do segundo período Roberto Carlos de Souza, 43 anos, que trabalha como auxiliar de manutenção em uma concessionária de Curitiba. Roberto é um dos estudantes mais assíduos da turma e se orgulha em dizer que “é difícil perder um dia de aula”. É a segunda vez que ele ingressa na EJA e reafirma que a estratégia das educadoras está funcionando: “Agora não vou parar tão fácil, não”.
A articuladora Elaine Cristina lembra com precisão o dia em que Roberto voltou a estudar (15 de julho de 2014) e também um dos marcos importantes da trajetória do aluno: o momento em que Roberto substituiu o uso do lápis pela caneta nas aulas. “Isso demonstra a firmeza de que vai conseguir escrever sem precisar apagar ou refazer. É uma decisão madura e segura, que motivou o avanço dele para o segundo período”, comenta.
O engenheiro Sérgio Yoshio Yoneda, que coordena o setor de manutenção na concessionária onde Roberto trabalha, disse que costuma incentivar a continuação dos estudos por parte dos funcionários da empresa. “A gente sente que a pessoa que estuda é mais motivada, dá mais valor para o crescimento profissional e sua auto estima melhora”, disse.
“Nas atividades de manutenção mesmo, ele tem a responsabilidade de preencher um formulário de ordem de compra ou uma solicitação de materiais. É importante valorizar essa dedicação”, diz o engenheiro. Sobre a “escola” visitar o seu local de trabalho, Roberto avalia: “Mostra que o estudo está ligado a tudo o que a gente vive. Elas se importam com a pessoas, e não só com a nossa vida na sala de aula”.
Salas de acolhimento
Outra iniciativa adotada em Curitiba para estimular a permanência de jovens e adultos na escola são as salas de acolhimento – espaços onde as crianças podem ficar enquanto os pais estudam, cuidadas por profissionais da educação e envolvidas em atividades de lazer. As salas já foram implantadas em cinco escolas, duas delas na regional Cajuru. Só nessas duas escolas ficam em torno de 36 crianças.
Atualmente, 63 escolas municipais ofertam a modalidade da Educação de Jovens e Adultos. A EJA Fase I (1º ao 5º ano) é ofertada em 62 escolas, com 82 turmas; a EJA Fase II (6º ao 9º anos) é ofertada em três escolas, com 19 turmas, e o Projovem (programa do governo federal que atende jovens de 18 a 29 anos que não concluíram o ensino Fundamental, mas que saibam ler e escrever) é ofertado em oito escolas, com 20 turmas.
Até o início do segundo semestre do ano letivo de 2015, foram realizadas 1.551 matrículas na EJA Fase I; 538 matrículas na EJA Fase II e 822 matrículas no Projovem.
As ações da EJA de todas as regionais são coordenadas pela COPEJA (Coordenadoria de Políticas Educacionais para Jovens e Adultos) da Secretaria Municipal da Educação de Curitiba. A coordenadoria incentiva ações como a da regional Cajuru no sentido de aprimorar as condições de acesso e permanência dos estudantes na EJA. Isso se dá, também, por meio da busca ativa de possíveis alunos.
Maria do Socorro Ferreira de Moraes, coordenadora da COPEJA, lembra que embora o município de Curitiba tenha um dos menores índices de analfabetismo entre as capitais, ainda há aproximadamente 30 mil pessoas analfabetas pelas mais variadas razões, e mais cerca de 40 mil jovens entre 18 e 29 anos que, apesar de alfabetizados, não concluíram o ensino fundamental, etapa obrigatória da Escolarização Básica. “Trabalhamos para alcançar essa parcela da população. As pessoas escolarizadas têm mais autonomia, acesso a informações, são valorizadas profissionalmente e assim têm mais qualidade de vida”, afirma.
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