Texto: Roberto Couto
Secretaria Municipal da Comunicação Social (Secom)
Logo cedo, um funcionário deixava a sede da loja, na Rua Mato Grosso (atual Comendador Araújo) e visitava a casa dos clientes. No percurso, ele ia tomando nota dos pedidos - farinha, ovos, salame, batata e feijão -, que no mesmo dia eram empacotados e depois entregues. Foi assim que começou o estabelecimento comercial mais antigo em atividade em Curitiba e no Paraná, a Casa Glaser, que acaba de completar 139 anos de atividades ininterruptas no Centro da capital.
No dia 4 de janeiro de 1887, o imigrante austríaco Wenceslau Glaser inaugurou o Armazém Glaser, comércio especializado na venda de alimentos que adotava um inovador modelo de venda e entrega para a época, hoje conhecido por delivery. Rapidamente, com o sucesso, o estabelecimento ampliou seu mix de produtos, passando a oferecer também ferragens, vidros, cristais, porcelanas, louças e outros itens.
Testemunha da queda do Império
A Casa Glaser, nome adotado nos anos seguintes a inauguração do estabelecimento, foi, inclusive, “testemunha” da queda do Império no Brasil, ocorrida em 1889, e ajudou a escrever a história do comércio de rua de Curitiba, ocupando um imóvel histórico na esquina da Rua Comendador Araújo com a Visconde do Rio Branco.
O atual edifício, de 1914, é Unidade de Interesse de Preservação (UIP) da cidade e chama a atenção pela bela arquitetura neoclássica. Já foi moradia da família, que vivia no segundo andar, com as sacadas voltadas para a Comendador Araújo, o principal caminho que ligava Curitiba ao Interior do Estado numa época em que pela rua – hoje tombada - passavam bondes puxados por mulas.
“A Casa Glaser começou como um empório de secos e molhados, passando a oferecer ferragens nos anos seguintes e cristais importados a partir do início do século 20. Hoje, comercializamos móveis, luminárias, objetos de decoração e uma variedade de utilidades para a casa, inclusive os itens que tornaram a loja referência, como os cristais da Boêmia e cafeteiras italianas”, conta Bianca Glaser, hoje no comando do estabelecimento e bisneta do fundador, Wenceslau Glaser.
Bianca acompanha o dia a dia da loja desde menina, naquela época sob o olhar atento do pai, Mário Fernando Glaser, com quem dividiu o gerenciamento do estabelecimento por vários anos. Hoje, ela administra a Casa Glaser com a filha, Mariela.
“As administrações entre as gerações da nossa família têm sido muito distintas. A empresa era um pouco mais tradicional sob o comando com meu pai. A gente precisou modernizar a administração, não havia estoque computadorizado, por exemplo”, recorda Bianca.
Freguesas centenárias
Para conquistar novos compradores, Bianca e Mariela investem hoje em relacionamento digital com a clientela.
“Temos um e-commerce que vende para todo o Brasil. Mas também trabalhamos com um atendimento muito personalizado, pois temos uma clientela fiel. Temos freguesas com quase 100 anos”, completa Mariela.
Em 2003, com a inauguração do Centro Empresarial e da Galeria Glaser, a centenária loja foi integrada ao complexo. O edifício de dois pavimentos, com ares neoclássicos, forma uma bela composição com o prédio de escritórios contemporâneo.
“Chegar aos 139 anos da Casa Glaser é motivo de muito orgulho para nossa família. É muita história e a gente estar dando continuidade, agora com a quarta e a quinta gerações trabalhando juntas, mostra que é possível fortalecer novos canais de venda sem abrir mão da essência da Casa Glaser: o atendimento próximo e personalizado”, completa Bianca.
Exemplo no Centro
Para o prefeito Eduardo Pimentel, a trajetória de sucesso da Casa Glaser mostra a força de um estabelecimento comercial que busca inovar, fidelizar e criar um ciclo virtuoso de crescimento.
“A Casa Glaser construiu sua marca, mostrando que é possível aumentar a oferta de produtos e dos canais de venda sem abrir mão do atendimento personalizado. Esse cuidado cria laços, constrói memórias e mantém viva a essência da loja ao longo de seus 139 anos”, avalia Eduardo Pimentel.
O prefeito espera que outros estabelecimentos comerciais sigam o exemplo da Casa Glaser e, além de inovar e se reinventar permanentemente, acreditem no potencial do Centro. “Com o programa Curitiba de Volta ao Centro, que prevê ações de redesenvolvimento da região central, estamos preparando as bases para que mais comerciantes encontrem no bairro as condições para empreender e gerar emprego e renda”, completa Eduardo Pimentel.
Memória preservada
O presidente da Associação Comercial do Paraná (ACP), Paulo Mourão, também afirma que o estabelecimento da família Glaser serve de referência e inspiração permanente ao empreendedorismo paranaense. “A centenária Casa Glaser representa um marco histórico do desenvolvimento econômico e urbano, símbolo maior de solidez, tradição e credibilidade, fortalecendo a identidade do comércio local, preservando a memória econômica e cultural", completa Mourão.
O Centro de Curitiba reúne, atualmente, 4,4 mil estabelecimentos, 10% do total dos 44,5 mil comércios varejistas de toda a cidade, segundo dados do Serviço de Inteligência de Mercado ACP/Equifax, da Associação Comercial do Paraná (ACP).
Além da Casa Glaser, a região central da capital (incluindo o bairro São Francisco) reúne outros estabelecimentos centenários, como a Mercearia Viana (Rua Cândido Lopes, 38), de 1906; Padaria América (Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 942), de 1913; e Casa Edith (Praça Generoso Marques, 37), referência em moda masculina na cidade desde 1917.
Linha do tempo
- Nascido na Áustria, o imigrante Wenceslau Glaser chegou ao Brasil em 1870.
- No dia 4 de janeiro de 1887, Wenceslau Glaser inaugurou o Armazém Glaser, na rua Mato Grosso (atual Comendador Araújo), no Centro de Curitiba, comércio especializado na venda de alimentos.
- No início do século 20, já como Casa Glaser, o estabelecimento já tinha ampliado o mix de produtos: além de gêneros alimentícios, passou a comercializar vidros, cristais, porcelanas e artigos de pintura de sua própria importação.
- Em 1914, o imóvel original foi demolido e, em seu lugar, foi construído o edifício em estilo neoclássico, como é conhecido hoje.
- Em 1925, o estabelecimento passou a vender essencialmente ferragens, cristais e louças.
- Em 2001, os irmãos Glaser dividem os negócios (cristais/itens para casa e ferragens). No imóvel original ficou a Casa Glaser, especializada em cristais, itens para casa e presentes finos, mantendo a tradição da família.
- Em 2003, anexo ao prédio construído no início do século 20, foi inaugurado o Centro Empresarial Glaser, com 15 mil m2 e uma torre de 24 andares, reunindo escritórios comerciais e interligado à Casa Glaser por uma galeria com outras 19 lojas (Galeria Glaser).
- Atualmente, a Casa Glaser é administrada pela quarta e quinta gerações da família, respectivamente, mãe e filha, Bianca e Mariela Glaser.