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Negócios

Doce de leite com cumaru da Amazônia vira carro-chefe de empreendedora de Curitiba

Nita Cozinha de Família faz sucesso com a produção de leite condensado artesanal. Na foto, a proprietária Letícia Nogueira. Curitiba, 11/02/026. Foto: Valquir Kiu Aureliano/SECOM

O que começou na cozinha de casa se transformou em um negócio que hoje movimenta cerca de 400 litros de leite por mês. A chef Letícia Nogueira, formada em Gastronomia pela PUCPR, encontrou no doce de leite com cumaru, especiaria amazônica, o carro-chefe da marca que ganhou espaço no mercado ao unir técnica, memória afetiva e estratégia empreendedora.

Filha de uma família que trocou a cidade pela vida no campo quando ela tinha apenas 2 anos, Letícia cresceu em uma chácara, na região de Curitiba, acompanhando a mãe na cozinha. “Como a gente morava um pouco longe da cidade, tudo era feito em casa. Muitas coisas eram produzidas e transformadas ali mesmo. Foi nesse ambiente que eu comecei a ter contato com o alimento, com o cozinhar, com esse mundo da gastronomia”, relembra Letícia.

Da mãe vieram as receitas. Da avó Nita, a inspiração que se tornou essência da marca que tem o nome dela. “Minha avó foi uma grande referência para mim, não necessariamente pelas receitas, mas pela forma como acolhia as pessoas através da alimentação. Essa aura de comida afetiva, amorosa e acolhedora vem muito dela”, conta.

Aos 20 anos, já formada, Letícia começou a trabalhar em restaurantes. Depois de algumas experiências, foi chamada para integrar a equipe de um estabelecimento maior exatamente no dia em que foi decretado o lockdown da pandemia. A contratação não se concretizou. “Era inédito na minha vida estar desempregada, ainda mais em plena pandemia”, lembra.

Pouco tempo depois, conseguiu vaga em um restaurante que atuava com delivery. Mesmo com o movimento intenso, havia momentos livres. Foi ali que a ideia do negócio da Nita Cozinha de Família começou a ganhar forma.

No início, a marca reunia diferentes produtos que faziam parte da trajetória pessoal da chef. Geleias, arroz doce da mãe, receitas temáticas de festa junina e, desde o primeiro dia, o doce de leite. As vendas começaram pelo Instagram. “Primeiro eu contei a história. Criei a base da ideia da marca e fui apresentando produtos artesanais, naturais, sem conservantes ou aditivos, que facilitassem a vida das pessoas”, diz a empresária.

Com o tempo, ficou claro  que o doce de leite era o produto que conquistava mais clientes. Hoje, cerca de 80% da produção é dedicada ao doce.

Especiaria como diferencial

Ela explica que um dos diferenciais do doce de leite está na receita com cumaru, semente de uma árvore amazônica conhecida pelo aroma intenso e sabor marcante. Extremamente aromático e levemente amadeirado, o cumaru confere profundidade ao doce de leite e cria uma identidade própria para o produto.

“A combinação equilibra tradição e originalidade, transformando um clássico da confeitaria brasileira em uma experiência sensorial única”, diz.

Com o crescimento da produção, que hoje utiliza em média 400 litros de leite por mês, Letícia buscou apoio no ecossistema de inovação da cidade. Foi por meio de pesquisas que conheceu as iniciativas do Vale do Pinhão e passou a se aproximar da Agência Curitiba de Desenvolvimento e Inovação, onde já participou de diversos cursos.  

“Meu negócio começou muito pequeno, dentro de casa, sem estrutura financeira ou física. Quando a gente inicia assim, precisa encontrar aliados para crescer e se perpetuar. A Agência Curitiba foi uma dessas parceiras nesse processo de amadurecimento”, afirma.

Inspiração

Para o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico e Inovação, Paulo Martins, histórias como a de Letícia mostram a força do empreendedorismo local.

 “Curitiba tem talentos que transformam tradição em inovação. Quando uma empreendedora alia técnica, identidade cultural e visão de mercado, ela não só cria um produto diferenciado, mas também gera renda, movimenta a economia e inspira outras pessoas a acreditarem em seus projetos”, afirma o secretário.

O presidente da Agência Curitiba de Desenvolvimento e Inovação, Dario Paixão, destaca o papel do ecossistema no fortalecimento de negócios criativos. “Nosso compromisso é oferecer capacitação, conexões e oportunidades para que ideias se tornem empresas estruturadas. A trajetória da Letícia mostra que, mesmo começando de forma simples, é possível crescer com planejamento, profissionalismo e apoio adequado”, diz o presidente.

Profissionalismo desde o início

Desde o início, Letícia decidiu conduzir a marca com postura profissional. Investiu em identidade visual, rótulos completos, informações claras e apresentação cuidadosa, mesmo produzindo em casa. “Eu sempre pensei no meu negócio como algo grande, mesmo quando era apenas uma ideia. Me preocupava com a estética, com todas as informações necessárias, com uma imagem profissional. Teve cliente que ligou pedindo para falar com o setor financeiro, porque parecia uma empresa já estruturada”, lembra a empreendedora.

Para quem deseja empreender, ela deixa um conselho: “Mesmo que o seu negócio seja muito pequeno, ou apenas uma ideia, pense nele desde o primeiro dia como algo grande e possível. A primeira pessoa que precisa acreditar é você. Essa postura muda a forma como você lida com o dia a dia e influencia a maneira como o mercado enxerga o que você está construindo.”