Tal qual um time de futebol, os onze integrantes da Fanfarra da Escola Municipal Enéas Faria tomam suas posições. Bumbos, surdos e caixas posicionados, eles esperam o sinal do regente. Fazendo o papel do técnico, Ewerton Camargo comanda os movimentos e o som começa a ser ouvido no salão. A apresentação é a primeira de uma série de manifestações artísticas que prendem a atenção dos cerca de 150 presentes. Já é noite, mas ninguém arreda pé durante o show, que também tem mágico, dupla sertaneja e contação de história de bruxa.
A fanfarra, a dupla sertaneja e a plateia são formados por alunos de turmas da Educação de Jovens e Adultos da Regional Cajuru. Na noite de quinta-feira (25), eles saíram da rotina de aulas em oito escolas de vários bairros da regional e se reuniram na Escola Enéas Faria, na Vila Autódromo, para mostrar à comunidade um pouco de seus talentos e do que vêm produzindo no curso. Além do momento cultural, montaram uma exposição de trabalhos e participaram de oficinas.
As atividades, coordenadas pela pedagoga Priscila Costa, fazem parte da 1ª Semana de Jovens e Adultos organizada na regional. “Nós temos programas mensais, sempre levando os alunos ao teatro, cinema e rodas de contação de histórias. Sempre estamos inventando alguma coisa cultural”, conta ela. Enquanto fala, Priscila tira um aluno para dançar, brinca com outro e vai cumprimentando um a um pelo caminho.
Ela está na EJA há mais de dez anos e conta que vê o trabalho como algo muito maior do que um emprego. “Eu acredito na educação de jovens e adultos. É um tempo que eles não tiveram na idade própria e hoje estão retomando. Precisamos valorizar isso, pelo sofrimento e dificuldades no caminho desses alunos. Para mim isso aqui é mágico, é um sonho se tornando realidade”, diz.
Ewerton Camargo, o regente da fanfarra, diz que as apresentações são um momento especial para os alunos. O grupo inclui desde adolescentes até senhores de cabelos brancos. “O importante é deixar eles à vontade, mostrar a diversão e a terapia da música. Eles estão aqui para relaxar e sempre saem de alma lavada depois das apresentações”, conta.
Entre uma música e outra tocada pela dupla Fernando & Fabrício e a banda Novo Horizonte, a chefe do núcleo de educação do Cajuru, Sandra Lenara Nunes de Carvalho, explica que a educação de jovens e adultos é especial porque consegue reverter a lógica da aprendizagem: “Aqui é diferente. Os alunos têm muito a ensinar para a gente e não apenas o contrário, como pode parecer. Trabalhar com jovens e adultos é um grande desafio e nós valorizamos o esforço que eles fazem, de vir até aqui depois de um dia cansativo de trabalho e se propor a aprender”.
Exposição
As apresentações expostas pelos alunos das oito escolas que participam da EJA na Regional Cajuru são resultado de temas propostos pelo Ministério da Educação e da Cultura (MEC). “São temas desenvolvidos desde o começo do ano, sempre ligados ao trabalho, como meio ambiente, segurança e a valorização da mulher na sociedade”, explica Priscila. Pelos corredores, cartazes mostram a importância da separação do lixo, materiais em crochê e poesias são distribuídos por crianças e uma violinista deixa todos paralisados, apreciando o som vindo das quatro cordas.
Para finalizar a noite especial, oficinas entretêm os alunos com temas variados. Jair Marcondes participou da atividade “Anos 70”. Fã de Elvis Presley e vestindo uma peruca black power, ele logo entrou no clima e começou a dançar pelo salão. “Dancei mesmo, fiz até passinho. Isso aqui é uma alegria para mim, conhecer gente nova, participar das atividades”, diz.
Professores, voluntários e convidados também ensinavam sobre fotografia, pintura em tela, rádio, dança de salão, saúde, poesia e ikebana, a arte oriental que dá vida às flores. A professora desta última oficina, Irene Andreassa Finder, explicava aos interessados que iam chegando que “ike”, em japonês, significa vida e “bana”, flor. “Para mim o trabalho realizado com esses jovens e adultos pode ser representado por um ikebana. Já adultos, como flores maduras, eles estão se enchendo de vida e espalhando alegria, por meio do conhecimento que recebem aqui nestas salas de aula”, disse a instrutora, sorrindo e oferecendo uma flor para uma senhora curiosa parada na porta da sala.