Texto: Guilherme Voitch
Prefeitura de Curitiba
Nascido em uma família católica da Lituânia, Giedrius Gapsys, 62 anos, tinha 20 quando ouviu pela primeira vez o canto gregoriano. Foi um padre que dominava a técnica quem lhe apresentou algumas canções litúrgicas. Giedrius, que a essa altura já tinha grande interesse por música, classifica o episódio como uma descoberta. “Senti naquele canto uma incrível força espiritual.”
O impacto daquela revelação, porém, se deve também a questões bem mais mundanas. A Lituânia vivia, naquela época, sob uma ditadura de partido único, integrada à União Soviética. “Qualquer coisa relacionada à música sacra era oficialmente proibida e de muito difícil acesso.”
Hoje, mais de quatro décadas depois daquela descoberta, Gapsys está em Curitiba para divulgar o canto que um dia foi restringido em todo o Leste Europeu. Ele participa do Cantate – Encontro de Canto Gregoriano e Polifonia Sacra como professor e curador. O evento, que ocorre nesta sexta-feira (14/8), sábado (15/8) e domingo (16/8), reúne oficinas e atividades voltadas a músicos e cantores, além de uma programação aberta ao público, com apresentações de canto gregoriano e polifonia sacra.
Ao lado do padre Pedro Gubitoso, do maestro curitibano Francisco Wildt e do professor Edwin Lima, de São Paulo, Giedrius vai compartilhar um pouco desse universo de mil anos atrás em cursos, oficinas e apresentações.
A programação do Cantate inclui masterclasses, conferências, oficinas de interpretação, práticas de regência e canto, além de concerto de música sacra e celebrações litúrgicas. A iniciativa é da Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Inovação (SMDEI), Fundação Cultural de Curitiba (FCC) e Curitiba Turismo, em parceria com o Instituto Bom Pastor (IBP).
A polifonia e os neumas
Depois de ser apresentado ao canto gregoriano, Giedrius concluiu os estudos em piano e história da música na Lituânia e seguiu para a França, onde aprimorou sua formação no Conservatório Nacional Superior de Música e Dança de Paris. Na Sorbonne, finalizou seu doutorado em 2011 com uma pesquisa sobre as polifonias dos séculos 12 e 13. “As polifonias são composições com mais vozes, geralmente entre três e quatro, inspiradas no canto gregoriano, que é essencialmente monofônico, com uma única linha melódica.”
Em Paris, Giedrius estava no lugar certo para desenvolver seus estudos. A Biblioteca Nacional da França conserva centenas de manuscritos de diferentes períodos da Idade Média. Ao longo dos séculos, manuscritos que deixavam de ser utilizados por mosteiros e outras instituições religiosas foram incorporados às coleções da biblioteca, que teve sua origem na antiga Biblioteca Real.
Os manuscritos mais antigos remetem aos primeiros registros escritos do canto gregoriano, desenvolvido a partir de um repertório de cânticos litúrgicos cristãos que, inicialmente, era transmitido de forma oral. “Os primeiros registros com notação musical só aparecem em meados do século 9. E não se tratam de notas musicais como as conhecemos hoje. Eles eram estruturados a partir dos neumas, que marcavam indicações sobre a orientação da melodia”, diz Giedrius.
Os neumas são uma espécie de avôs das partituras modernas. Seus sinais registravam o movimento da melodia e ofereciam indicações sobre sua execução, mas ainda não indicavam com precisão a altura das notas musicais, como faria a notação que surgiria posteriormente.
Mas, para pesquisadores do canto gregoriano como Giedrius, os neumas não são apenas uma etapa rudimentar da evolução da escrita musical. Eles guardam nuances sobre a maneira como esses cantos eram executados há séculos.
Uma das experiências com os neumas, recorda o musicólogo, aconteceu durante uma visita à Abadia de São Galo, na Suíça. Na biblioteca da abadia está guardado o Antifonário de Hartker, um dos mais importantes manuscritos medievais de canto litúrgico, produzido pelo monge Hartker entre o final do século 10 e o início do século 11.
“Visitamos a biblioteca com nossos alunos para contemplar o manuscrito original, construído a partir dos neumas, e cantamos uma das peças. Foi muito emocionante e o próprio bibliotecário ficou impressionado.”
Para Giedrius, os neumas são registros extremamente ricos porque mostram detalhes expressivos que podem se perder nas notações mais recentes e sistemáticas. “Ao estudá-los, tornamo-nos capazes de quase ouvir a voz de quem os escreveu há mil anos.”
“A música antiga, a música gregoriana, a música sacra não têm seu lugar no museu, somente nas igrejas ou na universidade. Seu lugar está no coração dos ouvintes, como todos aqueles que virão para esse acontecimento”, explica Giedrius.