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Trabalho artesanal

Na Praça Eufrásio Correia, 220 toneladas de pedras farão parte do calçadão; petit-pavê começou a ser instalado

Trabalhadores transformam centenas de pedras de basalto e calcário em um mosaico preto e branco no local onde ficará o novo calçadão

Na Praça Eufrásio Correia, 220 toneladas de pedras farão parte do calçadão; petit-pavê começou a ser instalado. Curitiba, 05/10/2026. Foto: Ricardo Marajo/SECOM

Uma a uma, milhares de pedras passam pelas mãos experientes de calceteiros que trabalham no novo calçadão da Praça Eufrásio Correia, em andamento no Centro. Eles escolhem o tamanho, o formato e a face de cada peça para formar, pouco a pouco, o mosaico em preto e branco com desenhos inspirados em motivos indígenas e em elementos paranistas, como o pinhão.

Cerca de 220 toneladas de pedras de basalto e calcário serão utilizadas para formar 1.820 m² de calçadas da região. Os desenhos acompanham os padrões presentes nas calçadas do entorno e ajudam a preservar as características históricas da praça que é tombada.

A calçada de petit-pavé, técnica de tradição portuguesa que se tornou um dos símbolos de Curitiba, estará em frente à antiga estação ferroviária, trecho onde antes ficava a pista lenta da Avenida Sete de Setembro no sentido Praça do Japão, entre as ruas Lourenço Pinto e Barão do Rio Branco. O calçadão será composto ainda de calçada em concreto com acessibilidade e ciclofaixa em asfalto para ciclista.

“Com o calçadão, a praça ganha um novo desenho paisagístico e novas conexões entre diferentes modais, estimulando os deslocamentos a pé sem alterar suas características históricas", afirma Luiz Fernando Jamur, secretário municipal de Obras Públicas. Tombada pelo Governo do Estado desde 1986, a praça, que data de 1885, tem reconhecida importância histórica, urbana e paisagística.

A implantação do novo calçadão é parte das intervenções do Lote 2.3 do BRT Leste/Oeste e integra o PRO Curitiba, o programa de requalificação e obras do município. A requalificação inclui ainda nova iluminação, paisagismo e a reformado do trecho de calçadas da Rua Barão do Rio Branco entre as avenidas Sete de Setembro e Visconde de Guarapuava.

Trabalho com ritmo próprio


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O trabalho dos calceteiros tem um ritmo próprio e as imagens formadas são o resultado de escolhas precisas. Em poucos segundo, uma pedra é testada, outra é deixada de lado, uma terceira encontra o encaixe certo com o auxílio do martelo que bate quase em sincronia. É assim que o desenho vai ganhando forma sob as mãos de quem aprendeu a reconhecer no olhar qual peça pertence a cada espaço.

Um dos responsáveis pelo mosaico é Gilberto Lopes, especialista em petit-pavé. O ofício foi aprendido quando ainda era criança, em Ponta Grossa. Desde então, ajudou a construir calçadas em diferentes pontos de Curitiba. Entre elas, estão as do entorno da Praça Eufrásio Correia e do Shopping Estação, onde trabalhou há mais de 30 anos. 

“Eu amo o que eu faço. Esse é um ofício que está acabando, eu viajo para muitos lugares porque há pouca gente trabalhando ainda nisso. Já fui filmado e fotografado trabalhando e foi com esse ofício que eu criei a minha família”, conta Lopes.

Experiência ensinada


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Edson Luiz Faria trabalha há mais de 50 anos com a construção de calçadas de petit-pavé. Entre os trabalhos que levam sua marca estão os desenhos das calçadas da Rua XV de Novembro, da Rua Barão do Rio Branco e da Praça Carlos Gomes, que é a sua preferida.

“Eu acho que ficou muito bonita e essa aqui vai ficar assim também,”, diz o calceteiro que começou como ajudante de uma empresa, foi aprimorando a técnica e, ao longo dos anos, tornou-se referência para outros colegas de profissão. Hoje, também ensina boa parte dos calceteiros de Curitiba.

Observar o trabalho de Edson encanta. A mão busca a pedra, os olhos conferem o formato e, em poucos segundos, vem a decisão sobre onde ela deve ser encaixada. Algumas peças são deixadas de lado porque não têm o tamanho ou o formato adequado.

“A gente assenta os desenhos com o molde e daí vai colocando as pedras. Vai escolhendo as melhores, a face, o lado certinho e tal, onde elas encaixam melhor, e vai colocando. Aí, no final, ela é socada e depois é rejuntada com areia e cimento. A nossa dificuldade é se chover, porque o solo tem que ser seco para a pedra parar no lugar certinho”, explica Edson.

Entre os profissionais que aprenderam com ele está Ilson Pereira, parceiro na obra da Eufrásio Correia. Para ele, além da técnica, é preciso concentração.

“Tem que cuidar para não martelar o dedo. Isso, para mim, é como uma terapia. Eu fico aqui e esqueço do que está em volta”, diz Pereira.

Trabalho exige prática

Os calceteiros têm como desafio executar os desenhos nos trechos de calçada que passam entre e ao redor das novas estações-tubo. 

De acordo com Natália Logen, engenheira da Secretaria Municipal de Obras Públicas (Smop) e fiscal da obra, essa característica manual da confecção da calçada de petit-pavé tem reflexo no ritmo de execução da obra.

“As calçadas de petit-pavé têm um ritmo de execução diferente das calçadas de concreto. É um trabalho artesanal, feito pedra por pedra, que exige tempo e cuidado. Quando todo o conjunto da obra estiver finalizado, além da beleza e do respeito às características históricas da região, o cidadão terá acessibilidade e espaços bem definidos para pedestres, ciclistas, usuários do transporte coletivo e motoristas”, afirma.

Diferentes frentes de obras

Enquanto os calceteiros seguem em seu ritmo artesanal, a obra tem outras etapas ao longo do trecho que forma o Lote 2.3 do BRT. Ao mesmo tempo em que uma equipe assenta pedras, outras trabalham em pavimentação, drenagem, ciclovia, na conclusão das novas estações-tubo – que serão as maiores da cidade - na iluminação, paisagismo e sinalização.

“É uma obra complexa porque acontece em uma área de grande movimentação da cidade e com várias frentes trabalhando ao mesmo tempo”, explica Manuela Marqueño, diretora do Departamento de Pavimentação da Secretaria Municipal de Obras Públicas.

As obras que estão no trecho em frente a praça devem ser concluídas até o final de novembro, dependendo das condições climáticas.