Texto: Franco Iacomini Junior
Secretaria Municipal da Comunicação Social (Secom)
O primeiro concerto do ano do programa Música pela Vida, uma iniciativa dos integrantes da Camerata Antiqua de Curitiba para levar música, esperança e alegria a locais como hospitais e asilos da cidade, foi realizado nesta terça-feira (28/4), no Hospital do Idoso Zilda Arns. Assim que ouviu os primeiros acordes de violino, a fisioterapeuta Karin Cherobim Ruglio começou a andar pelos corredores do hospital para chamar os pacientes. A direção já havia avisado os colaboradores da apresentação da Orquestra de Câmara de Curitiba no hall da instituição.
“Eu só vou se puder dançar”, disse Nadir Rosinete Maia, internada para tratar de uma infecção renal. O marido, Fernandes, sua companhia há 45 anos, estava do lado, mas dizia que nunca soube dançar, apesar de conhecer a paixão de Nadir pelo baile.
“Não tem problema”, respondeu Karin. “Se ninguém quiser eu mesma danço com você.”
Desceram, Nadir e Fernandes de mãos dadas. E Karin cumpriu a promessa: estetoscópio pendurado nos ombros, ela segurou as mãos de Nadir e juntas rodopiaram pelo corredor cheio de gente.
Repertório
Pacientes – alguns em cadeiras de rodas, vários em usando as roupas de internação, outros a caminho de exames – e profissionais da saúde pararam para ouvir um programa que mesclou clássicos como Jesus Alegria dos Homens, de Johann Sebastian Bach, com Eleanor Rigby, dos Beatles, e Garota de Ipanema, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes.
Ao pé da rampa que leva ao primeiro andar do hospital, o médico João Otávio Zahdi assistia, com os olhos úmidos. Enquanto violinos, violas, cellos e contrabaixo apresentavam o tango Por Una Cabeza, imortalizado por Carlos Gardel, ele gravou um vídeo e enviou para a família. “Fiquei emocionado, meu pai gosta muito”, contou.
“A música faz um bem enorme no ambiente hospitalar, que é sempre muito tenso. Muda o clima”, disse o médico.
No Pequeno Príncipe
No Hospital Pequeno Príncipe, na quarta-feira (29), a orquestra tocou na hall do ambulatório, onde ficam os acessos à oncologia e à quimioterapia, entre outros serviços.
“A música ajuda a amenizar a ansiedade e o medo de família que, muitas vezes, está passando por tratamentos complexos”, afirmou Grazieli Fonseca, coordenadora do voluntariado no hospital.
Para o diretor-geral do Pequeno Príncipe, José Álvaro Silva Carneiro, apresentações como essa têm dado a muitos pacientes uma oportunidade única para ver de perto um violino ou um contrabaixo. “A gente acredita que a ciência e a arte são as coisas que o ser humano tem de melhor”, disse.
Na primeira fila do concerto do Pequeno Príncipe, Helena de Oliveira, 2 anos, sorria e dançava no colo do pai, Fabrício. Ela havia acabado de fazer um raio x e estava à espera da consulta. “As pessoas chegam tristes, ninguém vai ao hospital quando está bem. Mas o que nós vimos aqui renova o ânimo de qualquer um”, disse Fabrício.
A amazonense Gisele Serrão Costa da Silva, moradora de Campina Grande do Sul, também demonstrava entusiasmo. Ela foi ao hospital com os três filhos – Henry, de 18 anos, Helena, de 10, e Heloá, de 6 – para uma consulta da caçula com o ortopedista. Sem poder colocar o pé no chão, a pequena ficou no colo do irmão.
Indígena da etnia Baré, ex-trompetista da banda marcial de São Gabriel da Cachoeira (AM), Gisele demonstrou surpresa ao encontrar a orquestra no ambiente hospitalar. “Isso muda o dia da gente”, disse.
Interação com o público
Para os músicos, a experiência é muito diferente de um concerto comum. “Não é como tocar em um palco. No hospital, nós ficamos a um metro das pessoas, o contato é muito mais intenso”, explica Francisco de Freitas Júnior, coordenador da orquestra.
Essa proximidade permite situações impossíveis em um concerto comum. Em meio à apresentação no Hospital Zilda Arns, Nadir aproveitou o intervalo entre as peças, abraçou a violinista Vanessa Savytzky Schiavon e agradeceu pela apresentação. Ao fim, tirou fotos com os artistas. “Que esse povo continue alegrando corações igual ao meu”, disse.
Depois de dançar, cantar e sorrir no corredor do hospital, Nadir aproveitou para deixar uma sugestão de repertório: “Se tivesse um xote ou um vanerão ficava melhor ainda!”
O projeto Música pela Vida continua nesta quinta-feira (30), às 10h30, com uma apresentação no Asilo do Tarumã. Há, ainda, apresentações agendadas para julho, também com a orquestra, e novembro, com o coro da Camerata Antiqua de Curitiba.
Sobre o grupo
Fundada em 1974, a Camerata Antiqua de Curitiba é mantida pela Fundação Cultural de Curitiba e administrada pelo Instituto Curitiba de Arte e Cultura (Icac). Reconhecida pela excelência na interpretação de repertórios renascentistas, barrocos, clássicos e contemporâneos, a Camerata realiza periodicamente concertos no Espaço Cultural Capela Santa Maria, além de apresentações didáticas e ações sociais, incluindo os programas Música pela Vida e Concertos nas Igrejas.