Ir para o conteúdo
banner

Paleontologia

Muito antes dos 333 anos, Curitiba guarda história de milhões

Pesquisadores encontraram fósseis de vertebrados que revelam novas espécies de tatus

Região de Curitiba abrigou, há 40 milhões de anos, ancestrais de tatus e outros animais pré-históricos, apontam pesquisas. Curitiba, 27/03/2026. Foto: Hully Paiva/SECOM

Antes do ser humano andar pelo planeta, a região onde hoje está Curitiba abrigava uma paisagem completamente diferente e fundamental para a fauna sul-americana. Pesquisas recentes mostram que o território foi habitat de espécies inéditas de ancestrais de tatus, além de preguiças, marsupiais e outros animais.

As descobertas são frutos de estudos conduzidos pelo paleontólogo e coordenador do Museu de Ciências Naturais da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Fernando Sedor, a partir de fósseis encontrados na Formação Guabirotuba, uma área geológica importante dentro da capital paranaense. Segundo o pesquisador, o material encontrado na região ajuda a preencher lacunas sobre a evolução de vertebrados no continente e no mundo.

“Por muito tempo o nosso continente ficou isolado dos outros, o que resultou no surgimento de animais que só podem ser encontrados por aqui. Formações com esses fósseis de mamíferos e demais vertebrados existem apenas em três locais no Brasil e a nossa cidade é um desses pontos”, comentou.

Formação Guabirotuba

Em um terreno ao sul de Curitiba, perto da divisa com o município de Araucária, está o último remanescente da chamada Formação Guabirotuba. Olhando para Curitiba há cerca de 40 milhões de anos atrás, o cenário era totalmente diferente. O clima era marcado por uma sazonalidade muito forte entre verão e inverno, com a temperatura mudando bastante entre as duas estações.

Já a região era uma grande depressão que lembra a paisagem do Pantanal brasileiro nos dias atuais. Os responsáveis por guardar os fósseis pelos milhões de anos seguintes foram os vários rios e riachos que cortavam Curitiba. Com as fortes chuvas, os restos dos animais desaguavam em vales, posteriormente tomados por sedimentos.

Novas espécies curitibanas

Durante os trabalhos de campo na Formação Guabirotuba, pesquisadores identificaram pelo menos cinco novas espécies de tatus ancestrais. Esses animais são considerados formas primitivas que deram origem aos exemplares atuais.

Apesar de, à primeira vista, os animais parecerem muito semelhantes entre si, são nos detalhes que a ciência encontra as diferenças. As principais características distintivas estão na carapaça, formada por pequenas placas ósseas chamadas osteodermos.

Essas placas variam em número, formato, posição e até na forma como se articulam, permitindo que o animal curve o corpo para se proteger. Foi justamente a análise dessas estruturas que permitiu aos pesquisadores identificar espécies que não correspondem a nenhum outro animal já conhecido, seja extinto ou não.

“Devido a termos encontrado uma série de fragmentos de tatus com características que não são presentes em nenhuma outra espécie vivente ou extinta, elas são consideradas espécies novas. Os tatus são originários da América do Sul, então essas descobertas são muito importantes”, explicou.

O último tatu inédito encontrado em Curitiba foi o Parutaetus oliveirai, que tinha o tamanho do tatu-peludo, podendo chegar a 40 centímetros de comprimento. Dentre os exemplares descobertos, também se destaca o Proecoleophorus carlinii, que atingia o tamanho do tatu canastra, a maior espécie viva.

Fauna pré-histórica

Curitiba também abrigava desde pequenos anfíbios até grandes predadores terrestres. Entre os mamíferos, estavam parentes dos gambás, alguns de pequeno porte, mas outros que podiam atingir o tamanho de um cachorro. Esses animais fazem parte de um grupo chamado metatérios, que inclui espécies já extintas e que ajudam a entender a evolução dos marsupiais na América do Sul.

A fauna pré-histórica se destaca também pela presença de predadores de grande porte. Fósseis indicam a existência de crocodilianos terrestres gigantes, animais que vivam fora da água e tinham dentes serrilhados, extremamente eficientes para a caça.

Outro grupo que chama atenção são as chamadas “aves do terror”, grandes aves carnívoras que podiam ultrapassar dois metros de altura. Sem poder voar, elas eram corredoras rápidas e utilizavam o bico e as pernas longas para capturar as presas. Ao lado desses gigantes, também conviviam aves menores, além de anfíbios e peixes semelhantes aos atuais cascudos.

“É uma fauna muito variada, e a todo momento estamos encontrando novidades. Sempre que vamos a campo podemos voltar com coisas novas. É impressionante como um local que está tão próximo de nós guarda informações tão importantes sobre o passado”, finalizou.

A região também era habitada por animais com características únicas, que não existem mais atualmente. Entre eles estão os chamados pirotérios, mamíferos com casco que lembravam antas, mas pertenciam a um grupo completamente diferente.

Passado que ajuda a entender o presente

As descobertas feitas em Curitiba mostram que, há milhões de anos, a região já desempenhava um papel importante na biodiversidade do continente. Ao estudar esses fósseis, os cientistas conseguem entender melhor como os animais evoluíram e como os ecossistemas se transformaram ao longo do tempo.

Hoje, esse passado distante ajuda a contar uma nova história sobre a cidade, sendo um território-chave para compreender a evolução da vida na América do Sul.