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História

Missas, mosquetes e festas: como a antiga Curityba celebrou a Independência do Brasil

Atas da Câmara registram celebração com missa, salvas de mosquetaria, iluminação nas casas e gritos de “Independência ou Morte”

Inauguração da herma do padre Ildefonso Ferreira Xavier, em 1922. Foto: Acervo Curitiba Histórica

Texto: Matheus Neme (supervisão de Guilherme Voitch)
Prefeitura de Curitiba

Há 204 anos, Curitiba ainda era uma pequena vila, sede da comarca e pertencente à Província de São Paulo. As ruas eram poucas, as casas baixas e a maior parte da população vivia ligada às atividades do campo. Foi nesse cenário que a notícia da Independência do Brasil chegou e ganhou uma celebração registrada em detalhes pela Câmara local.

A descrição da cidade feita pelo naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, que passou por Curitiba em 1820, ajuda a imaginar o cenário de dois anos antes da Independência. Ele encontrou uma cidade com cerca de 220 casas, pequenas, de um pavimento e, em grande parte, construídas em pedra. A praça pública era ampla e coberta de grama, enquanto boa parte dos moradores, agricultores, costumava ir à vila principalmente aos domingos e dias santos.

Naquele período, Curitiba já havia ganhado uma certa importância administrativa. Desde 1812, era sede da Comarca de Curitiba e Paranaguá, posição que antes pertencia à cidade litorânea. Ainda assim, permanecia uma comunidade de dimensões modestas, concentrada nas proximidades do atual Centro Histórico.

A notícia chega à vila

O 7 de Setembro não foi imediatamente celebrado como hoje. Ao invés disso, uma outra data também era muito importante nas comemorações da Independência. Em 12 de outubro de 1822, Dom Pedro I foi aclamado Imperador Constitucional do Brasil, em uma cerimônia no Rio de Janeiro que reuniu representantes das câmaras, povo e tropas. A própria ata da aclamação realizada na Corte registra a defesa da Independência e da Assembleia Constituinte.

Em Curitiba, a ata da Câmara local registra que, mesmo antes do aviso oficial sobre a cerimônia, moradores haviam tomado conhecimento de que D. Pedro seria aclamado e, durante a noite, iluminaram suas casas e deram “muitas salvas em demonstração de seu júbilo”.

No dia 12, a comemoração ganhou caráter oficial. A Câmara, militares e moradores se reuniram para a aclamação de D. Pedro. Segundo o documento, o entusiasmo foi tamanho que alguns participantes chegaram a derramar lágrimas de satisfação.

A celebração reuniu “Povo, tropa e mais Nobreza”, segundo a ata. Entre os gritos registrados estavam “Viva a Independência do Brasil”, “Viva a Assembleia Geral Constituinte e Legislativa do Brasil” e “Viva o Imperador Constitucional do Brasil o Senhor Dom Pedro Primeiro”.

Ao final, o documento registra uma expressão que se tornaria um dos principais símbolos da data: “Independência ou Morte”.

A aclamação não ficou restrita aos discursos. Antes da cerimônia, foi celebrada uma missa solene na Igreja Matriz, acompanhada de um sermão relacionado ao momento político. Depois, houve a oração Te Deum, em ação de graças. A solenidade terminou com três descargas de mosquetaria feitas pela tropa de cavalaria da vila, que estava posicionada em frente à Matriz e aos “Paços do Concelho”.

A região onde esses acontecimentos ocorreram corresponde ao entorno da atual Praça Tiradentes, então conhecida como Largo da Matriz. O local concentrava a igreja, a Câmara e outras estruturas centrais da vila.

Curitiba dentro de uma disputa maior

Apesar de a celebração ter ocorrido em uma pequena vila, a Independência fazia parte de uma disputa política muito mais ampla. Para o professor de História da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Luiz Geraldo da Silva, compreender o que acontecia em Curitiba exige observar sua posição dentro das estruturas políticas e econômicas daquele período.

Curitiba ocupava uma posição importante nas redes econômicas que conectavam o Sul ao restante da América portuguesa. O trânsito de tropas e, principalmente, de gado pelos Campos Gerais fazia de Curitiba um ponto estratégico entre o Rio Grande do Sul e os mercados do Centro-Sul.

“A cidade estava dentro dessa configuração de tipo moderno, politicamente falando, que é a província de São Paulo. Curitiba foi o primeiro caminho fundamental desse gado, que seguia em direção à Feira de Sorocaba”, explica Luiz Geraldo.

Uma vila ao lado da Independência

A ata também revela que a manifestação não era apenas uma festa pela mudança de governo. O texto registra um compromisso político com o novo Brasil.

Povo e tropa teriam declarado que, pelo “amor” ao imperador e à Assembleia Constituinte, não poupariam “seus bens, seu sangue, e vida”, na expectativa de D. Pedro mantivesse e fizesse conservar a Assembleia brasileira.

“A grande questão, a partir daí, foi apoiar o príncipe ou apoiar as cortes. Havia uma tendência prevalecente nas províncias do norte a se apoiar às cortes de Lisboa. Enquanto havia uma tendência prevalecente aqui no sul a se apoiar o príncipe”, diz o historiador.

O posicionamento aparece novamente poucos dias depois. Em 16 de outubro, a Câmara registrou o recebimento de um ofício da Câmara do Rio de Janeiro que tratava da necessidade de D. Pedro ter liberdade para defender o Brasil dos males que o ameaçavam vindos das Cortes de Lisboa. Na mesma reunião, Curitiba decidiu enviar ofícios ao imperador e ao Senado da Câmara do Rio de Janeiro.

Poucos dias depois da aclamação do imperador, a Câmara curitibana já se colocava dentro do conflito político entre o novo governo brasileiro e as Cortes portuguesas.

O contexto ajuda a entender a posição. Em 21 de outubro, D. Pedro publicou uma proclamação em que afirmava que as Cortes de Lisboa pretendiam recolonizar o Brasil e apresentava a separação de Portugal como resultado do agravamento das relações entre os dois lados.

O padre curitibano que saudou Dom Pedro

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Curitiba também esteve representada nos primeiros momentos da Independência pelo padre Ildefonso Ferreira Xavier, nascido na cidade em 1795. Após se mudar para São Paulo, o sacerdote teria protagonizado, na noite de 7 de setembro de 1822, uma manifestação pública de apoio a D. Pedro I. Durante uma peça no Teatro da Ópera, na capital paulista, subiu em uma cadeira diante do camarote imperial e gritou três vezes: “Viva o primeiro rei do Brasil”.

A participação do padre no dia histórico foi lembrada em Curitiba durante as comemorações do Centenário da Independência, quando uma herma em sua homenagem foi inaugurada na Praça Santos Andrade, em 1922. A peça original foi restaurada em 2020 e levada ao Memorial de Curitiba. Na praça, permanece uma réplica em pedra.

Um curitibano na Corte

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A participação de Curitiba não terminou com a festa. Em 26 de outubro, a Câmara registrou a escolha de um representante para ir ao encontro do novo imperador. O escolhido foi o alferes Cândido Marcondes Ribas, descrito no documento como “natural desta vila” e então residente no Rio de Janeiro.

A missão era representar a Câmara e o povo de Curitiba diante de D. Pedro, felicitando o imperador pela chegada ao trono e prestando-lhe homenagem.

Cândido Marcondes Ribas viria a fazer parte de uma família conhecida posteriormente na história brasileira. Ele foi avô do médico sanitarista Emílio Ribas, personagem que se destacaria décadas mais tarde no combate às epidemias no país e pela participação na criação do Instituto Butantan.

A Independência no cotidiano de Curitiba

A ata da Câmara não permite saber exatamente como cada morador da vila recebeu a Independência. Afinal, trata-se de um documento oficial, produzido pelas autoridades municipais, e sua descrição de uma adesão unânime deve ser lida dentro desse contexto.

Mas ela deixa registrado que a Câmara de Curitiba se apresentou publicamente como apoiadora da Independência. As casas iluminadas durante a noite, as celebrações religiosas, a presença de tropas e tiros de mosquete mostram que a ruptura com Portugal já fazia parte da vida pública da pequena vila.