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Patrimônio cultural

Imagem de mais de 300 anos da padroeira de Curitiba está sendo restaurada

Imagem do século XVIII, a segunda mais antiga de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, está em processo de restauração e voltará ainda setembro para o acervo do Museu de Arte Sacra de Curitiba

Trabalho de restauro da imagem da Nossa Senhora da Luz dos Pinhais. Curitiba 03/09/26. FOTO: Luiz Pacheco/FCC

Um dos marcos da história de Curitiba ganha um novo capítulo justamente no mês em que a cidade celebra sua padroeira, Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, nesta terça-feira (8/9). A segunda imagem mais antiga da santa na capital paranaense, do século XVIII, está sendo restaurada. O trabalho começou no início do ano e entra agora em sua fase final, com previsão de conclusão ainda neste mês de setembro.

A restauração da imagem da padroeira é resultado de um projeto aprovado pelo Programa de Apoio, Fomento e Incentivo à Cultura de Curitiba, na modalidade Mecenato Subsidiado, da Fundação Cultural de Curitiba.

A ideia surgiu em 2022, quando o Museu de Arte Sacra da Arquidiocese de Curitiba (Masac), onde a imagem fica exposta para o público, estava fechado para restauro. A conservadora e restauradora Ana Eliza Caniatti fez um levantamento da peça e começou a elaborar o projeto junto com o produtor Gilmar Kaminski.

“Ela é a imagem mais importante do Masac”, explica Ana Eliza. A escultura de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais é a segunda imagem da santa que chegou à cidade. Produzida em Portugal, a peça foi encomendada em 1716 e chegou por volta de 1720 para a inauguração da Igreja Matriz de Curitiba, local onde hoje está a Catedral Basílica Menor de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais.

Raio X da imagem

Ela pesa cerca de 60 quilos e é feita de terracota, com uma base de preparação que utiliza branco de chumbo, entre outros elementos. “O uso da base de branco de chumbo é incomum em estátuas”, aponta a restauradora. “Era mais comum em pinturas, porque favorece a profundidade quando as tintas são aplicadas. No tridimensional, é algo mais raro”, complementa.

Essa é apenas uma das características que demonstram a importância da imagem e que foram identificadas a partir de uma parceria do projeto de restauração com o Laboratório de Espectrometria de Massas e Quimiometria da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

A equipe de restauro contou com diversos exames e testes para determinar os materiais utilizados na obra, além de radiografias para analisar partes mais delicadas ou que já haviam passado por intervenções. Ana explica que o uso do pigmento azul da prússia, por exemplo, não permite determinar uma data precisa, mas ajuda a compreender o período e as condições em que a peça foi produzida.

Na hora de definir o processo de restauração, cada detalhe importa. Até mesmo a posição dos dedos do Menino Jesus que está ao lado da santa é analisada. “Há variações entre uma representação com um dedo apontando para cima e outra com dois dedos levantados em sinal de bênção. Não existe arte sacra sem essa atenção aos detalhes”, afirma a restauradora.

A imagem hoje não exerce a mesma função religiosa de quando ocupava o altar da igreja, mas tem valor inestimável para a história de Curitiba. “O fato de ela ser um documento museal também define muito do processo de restauro”, comenta o produtor Gilmar Kaminski.

A santa, por exemplo, tem dedos das mãos quebrados que não serão refeitos pela falta de referências sobre sua forma original. Esses detalhes, inclusive as partes danificadas ou os pontos em que a tinta se perdeu ao longo dos séculos, ajudam a contar a história da obra.

A equipe de Patrimônio Cultural da Prefeitura de Curitiba participa das decisões sobre o que será tratado. O trabalho inclui a higienização da peça e testes para a remoção de camadas de pintura aplicadas em restaurações anteriores, sempre sem comprometer a pintura original.

“A iconografia dessa imagem é bastante diferente, com detalhes que não vejo em outras imagens, como o xale que cobre a santa”, observa Ana Eliza.

Financiamento

A restauração de imagens centenárias é um processo lento, custoso e detalhado, que nem sempre pode ser realizado facilmente. Com o apoio da Lei de Incentivo à Cultura, foi possível reunir uma equipe ampla e dedicada. Cerca de 15 profissionais participam do projeto, entre historiadora, pesquisadora, restauradores e fotógrafa.

“Conseguir realizar o projeto por meio da lei de incentivo possibilita desenvolver o trabalho de forma consistente, com uma equipe completa, além de pensar ações de difusão e educativas a partir desse processo”, explica Gilmar.

Depois que a estátua retornar ao museu, estão previstas ações até o fim do ano, como palestras sobre restauração e visitas guiadas para diferentes grupos.  “Além da imagem, o projeto se amplia para algo que se relaciona com a própria história da cidade”, complementa o produtor.

“A importância religiosa é fundamental, pois foi uma padroeira da cidade, e agora também é um documento museal, de como a peça foi feita na época, dos traços da arte do século XVIII e de como a obra veio ao Brasil. É um documento material”, afirma Ana Eliza.

Como surgiu a devoção à Nossa Senhora da Luz

A celebração de Nossa Senhora da Luz tem origem na Europa. O culto remonta ao século XIV, na Espanha, mas seu principal mito fundador surgiu no século XV, em Portugal. 

Em Curitiba, a primeira imagem de Nossa Senhora da Luz chegou por volta de 1640, com o paulista Suares do Vale, fugitivo de São Paulo que se instalou às margens do Rio Atuba. É dessa região que surgiu a lenda sobre a fundação da cidade. Segundo a tradição, a imagem da santa amanhecia voltada para a direção onde hoje está localizada a Praça Tiradentes.

Os povoadores seguiram a indicação e encontraram o Cacique dos Campos de Tindiquera. O local indicado pelo cacique, chamado “Coré-tuba”, ou “terra de muito pinhão”, tornou-se o marco zero de Curitiba.

Em 1995, um decreto do Papa João Paulo II reconheceu a devoção particular a Nossa Senhora da Luz dos Pinhais e a declarou padroeira municipal de Curitiba. Até hoje, a capital paranaense é uma das poucas cidades brasileiras cuja padroeira foi declarada pelo Sumo Pontífice.

Atualmente, essa primeira imagem faz parte do acervo do Museu Paranaense. A segunda imagem, que está sendo restaurada, tem 87 centímetros de altura, permaneceu no altar da Matriz até ser levada para o munícipio da Lapa, em 1894, antes da demolição da antiga igreja. O vigário que havia sido transferido levou a imagem junto.

Durante décadas, a peça ficou desaparecida e só foi encontrada novamente em 1970, na casa de uma moradora da Lapa. Hoje, integra o acervo do Museu de Arte Sacra da Arquidiocese de Curitiba, gerido pela Fundação Cultural de Curitiba.