Texto: Alice dos Passos Lima
Prefeitura de Curitiba
Com um acervo de mais de 45 mil gibis, 24 turmas ativas e cerca de 600 alunos, a Gibiteca de Curitiba consolida-se como um dos maiores centros de formação de quadrinistas do País, segundo levantamento inédito do Censo Nacional dos Profissionais de Quadrinhos e Humor Gráfico, realizado em 2025. De acordo com a pesquisa, a Gibiteca da capital está entre os centros de aprendizagem mais citados nacionalmente e é considerada um dos principais “celeiros” de quadrinhos na região sul, ao lado de Porto Alegre.
Para o artista e atual coordenador da Gibiteca, Fulvio Pacheco, esse marco é o resultado de um trabalho contínuo, nutrido pela efervescente cena independente e pelas políticas de incentivo cultural do município. Ele ressalta que a vocação da cidade para as artes gráficas tem raízes históricas profundas.
“A produção de quadrinhos em Curitiba tem aproximadamente 210 anos. O primeiro quadrinho de que se tem registro se chamava Gaveta do Diabo e foi publicado em 1888”, conta Fulvio.
Um lugar de encontro
A vocação da Gibiteca para formar profissionais começou a ser desenhada nos anos 1970, antes mesmo de sua inauguração oficial em 1982. Nessa época, a editora Grafipar instalou-se na capital paranaense com a audaciosa missão de publicar histórias em quadrinhos nacionais. O sucesso editorial atraiu desenhistas e roteiristas de todo o Brasil para a cidade. Essa efervescência revelou uma urgência: era preciso um espaço para reunir esses desenhistas e inseri-los no mercado.
O arquiteto, artista e idealizador da Gibiteca, Key Imaguire Jr., recorda a energia daquele período: “Existia um movimento forte dos artistas gráficos brasileiros que queriam participar do mercado de histórias em quadrinhos. Era evidente que os nossos talentos tinham o direito de ocupar esse espaço”
Key Imaguire, um dos idealizadores da Gibiteca de Curitiba. Curitiba, 16/05/2026. Foto: Alice dos Passos Lima/Secom
Entretanto, o arquiteto pontua que, apesar da vontade de fazer a cena de quadrinhos acontecer, existiam muitos obstáculos, um deles era a falta de um lugar físico.
“Às vezes os artistas se reuniam na casa de alguém ou nas universidades, não tinha um lugar próprio. Por um tempo até emprestei o meu escritório de projetos, que era na casa dos meus pais”, relembra com humor.
Foi exatamente dessa carência de um local adequado para exposições, lançamentos e desenvolvimento profissional que surgiram os primeiros esboços da instituição. 'Esse lugar, pensado para ser um ponto onde os artistas pudessem se desenvolver e se colocar no mercado, ainda não existia no Brasil, e talvez nem no mundo', ressalta Key.
Unindo forças, Key Imaguire Jr. e Domingos Bongestabs — consagrado arquiteto responsável pela Ópera de Arame — desenharam o projeto que passou por muitas mudanças e adequações. Em 1982, a Gibiteca de Curitiba abriu as portas em uma sala da Galeria Schaffer. Seis anos depois, transferiu-se para o Centro Cultural Solar do Barão, consolidando-se como o 'centro nervoso' da produção artística curitibana e recebendo grandes nomes da cena nacional e internacional.
Atualmente, devido a reformas no Solar do Barão, a Gibiteca está funcionando em um casarão histórico na Rua São Francisco, 326, no Largo da Ordem, em frente à Casa da Memória, recebe exposições, palestras, aulas, encontros de RPG e até possui uma sessão de gibis raros.
Ciclo vivo
O verdadeiro termômetro de sucesso da instituição vai além das estatísticas. No livro Narrativas Gráficas Curitibanas (disponível para consulta no próprio acervo), o premiado quadrinista local José Aguiar define a essência do espaço pela movimentação de seus frequentadores, que frequentemente passam de leitores para alunos, artistas profissionais e professores.
Ana Clara Viana Benitez, por exemplo, começou sua trajetória como aluna, atuou como estagiária e hoje compõe o quadro docente. Ela ministra aulas de aquarela e ilustração tradicional e, aos sábados pela manhã, ensina iniciantes a ganharem confiança em seus primeiros traços.
Ana Clara Viana Benitez, professora de aquarela e ilustração tradicional, forma nova geração de artistas na Gibiteca. Curitiba, 16/05/2026. Foto: Alice dos Passos Lima/Secom
Fulvio também é fruto direto dessa engrenagem. Ex-estagiário do espaço e antigo aluno de José Aguiar, ele hoje é um autor publicado e coordena a instituição. “Eu também tive vários alunos que acabaram se tornando autores, é um ciclo que vai se renovando”, conclui Pacheco.
O endereço mudou, mas o ritmo de capacitação segue intenso. O relatório de 2025 da Fundação Cultural de Curitiba (FCC) traduz o impacto do espaço na formação de público e de profissionais:
- 24 turmas de 14 cursos práticos e teóricos operando nos turnos da manhã, tarde e noite;
- 608 alunos matriculados;
- 31 eventos e lançamentos realizados;
- 10 exposições sediadas, servindo de vitrine para os artistas locais;
- 25.027 visitantes recebidos ao longo do ano.
Quatro décadas após rabiscar os primeiros rascunhos do que viria a ser a Gibiteca, Key Imaguire resume o legado da instituição que ajudou a criar como 'a filha que deu certo'. A aposta em construir um pilar de apoio, estudo e profissionalização entregou exatamente o que a classe artística precisava para existir. ‘Ela é muito mais do que sonhamos’', conclui o idealizador.
Lei de Incentivo
A formação na sala de aula deságua na publicação das obras. Para garantir que os novos talentos não fiquem apenas no rascunho, a profissionalização ganha um impulso decisivo por meio das políticas públicas. A FCC lança, anualmente, um edital específico de fomento que viabiliza a publicação de dez obras em quadrinhos. Como forma de democratizar o acesso à arte e formar novos leitores, a primeira tiragem física dessas obras é distribuída de forma gratuita para a população.
Essa injeção de recursos por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura atua como uma vitrine. Segundo Fulvio Pacheco, o edital tem um papel crucial não apenas em publicar os alunos e artistas locais, mas em divulgar a qualidade do trabalho local:
“A produção de quadrinhos de Curitiba é muito famosa nacionalmente. Onde você vai todo mundo conhece, já viu nosso material, conhece os artistas e tem a curiosidade de conhecer a Gibiteca”, destaca o coordenador.
Algumas das obras que ganharam vida por edital municipal
Arrojadas: mulheres paranaenses que reescreveram a história
Autor: Mylle Pampuch (roteirista) e Amanda Barros (quadrinista)
Gênero: Biografia,histórico
"Arrojadas: mulheres paranaenses que reescreveram a história” é uma história em quadrinhos que celebra a força das mulheres que desafiaram as expectativas de sua época e se tornaram ícones do Paraná. Nesta obra ilustrada e narrada, leitoras e leitores são convidados a viajar pelo tempo e conhecer as jornadas de Enedina Alves Marques, a engenheira desbravadora; o Trio Paranaense, símbolo do empoderamento na música; Júlia Wanderley, a educadora visionária; Ana Bertha Roskamp, a empresária que inovou com fios e lãs; Maria José Correia, a mãe que se tornou figura pública; e Mariana Coelho, a feminista que quebrou padrões.
* Mylle Pampuch é professora de roteiros de HQ na gibiteca, já lançou três obras pelo edital e está produzindo o segundo volume de “Arrojadas”, também pela Lei de Incentivo.
O Irresistível Alvo
Autor: André Caliman
Gênero: Estilo clássico noir do cinema e da literatura pulp
A trama é ambientada em uma típica praia brasileira, onde o espião Íkaros Floros percebe que já não é mais tão eficiente em seu ofício quanto antes. Em meio a cassinos e noites enluaradas, apaixona-se pela bela e enigmática Victoria, o alvo que deveria executar. A partir daí, Íkaros trava um conflito consigo mesmo, não sabendo se mata ou protege Victoria, perseguida pelos gângsters do litoral tropical. Mas a moça acaba se mostrando um alvo irresistível, porém não um alvo fácil.
Sopro do Céu
Autor: Irapuan Luiz
Gênero: Aventura, fantasia
Uma amálgama entre as linguagens de quadrinhos e livro ilustrado, “Sopro do Céu” conta a história de um jovem chamado Wan. Perdido e acidentado em uma montanha na China, Wan conhece uma figura peculiar, que o guia por uma jornada de sabedoria e autoconhecimento, que mudará o seu destino para sempre.
* Exemplares do “Sopro do Céu” ainda estão disponíveis para retirada gratuita na Gibiteca. Além dessa obra, Irapuan publicou outros dois quadrinhos inspirados na cultura tradicional chinesa através da Lei de Incentivo.
Malu - pequena, comum e extraordinária
Autor: José Aguiar
Gênero: Humor Cotidiano
Malu é uma adolescente que mora longe, não tem grana, pais separados, um irmão mala e amigos tapados. Esse livro reúne material da 'fase triangular' da Malu, que antecede a reformulação dela que iniciou em 2025 com a série Malu - querido diário mental.
O Bicho Estranho
Autora: Má Matiazi
Gênero: Infantil
Nosso herói é um bicho estranho. Não sabe bem o que é. Sente-se muito só, então vive a procurar alguém igual a ele. O Bicho Estranho é uma história leve e divertida sobre identidade, empatia, aceitação e, claro, sobre a riqueza da nossa fauna.
Histórias do Largo - Volumes 1 e 2
Autoras: Raphaela Corsi (Karmaleão) e Luana Camargo
Gênero: HQs biográficas
O primeiro e segundo volume da HQ Histórias do Largo mergulham nas trajetórias de vida dos feirantes que fazem da Feira do Largo da Ordem um dos maiores patrimônios culturais de Curitiba. Com roteiros de Luana Camargo e ilustrações de Raphaela Corsi, a obra traz, em formato de quadrinhos, as histórias de pessoas como Altamir, Angela Coraiola, Nilcema e Reginaldo, cujas vidas estão diretamente entrelaçadas ao cotidiano da feira.
*Raphaela, conhecida como Karmaleão, está atualmente produzindo sua terceira obra pelo Edital de 2025, intitulada “Batuqueira”.