Texto: Eliana Carmem Fachim
Secretaria Municipal da Comunicação Social (Secom)
Texto: Franco Iacomini
Prefeitura de Curitiba
Médico anestesista, artesão, musicista, colecionador. O carioca Roberto de Regina, morto no ano passado, aos 98 anos, era um homem de múltiplos talentos. Não gostava de ser chamado de maestro, embora tenha sido fundador da Camerata Antiqua de Curitiba, ao lado de Ingrid Müller Seraphim. Sua trajetória está agora em um longa-metragem do cineasta Luiz Eduardo Ozório, selecionado para participar em junho da seletiva brasileira do festival In-Edit, dedicado a documentários de arte.
Ozório estima que o documentário possa chegar aos cinemas entre o fim deste ano e o início do próximo. Em outubro do ano passado, foi premiado no 42º Festival de Cine de Bogotá.
“O filme conta a história de um homem quase centenário e acompanha sua vida no sítio onde morava, cuidando das plantas, de animais exóticos, além do cuidado diário com seu museu com mais de 500 peças em miniatura”, conta Ozório. “E, claro, com uma atenção mais do que especial à música, afinando constantemente seu cravo e fazendo ensaios diários.”
O cravo de que ele fala foi doado pela família de Roberto à Camerata Antiqua de Curitiba. Atualmente está em restauro, em um atelier de luteria em São Paulo, com previsão de retornar ao Paraná em setembro. Foi inteiramente feito à mão por Roberto – que foi a primeira pessoa a construir um instrumento desse tipo no país –, pintado e decorado inclusive na parte interna.
Curitiba aparece com destaque no documentário. “Ele fala com muito amor da cidade, da forma como ela o recebeu e do apoio à música erudita”, diz Ozório.
Em 2022, o Coro da Camerata Antiqua de Curitiba apresentou-se no Rio de Janeiro em um concerto em celebração aos 95 anos do artista. O concerto foi integralmente gravado pela equipe de Ozório e trechos dele fazem parte do documentário.
Quem foi o cravista
Nascido no Rio de Janeiro em 1927, Roberto de Regina foi um apaixonado por música antiga, que conciliou por longo tempo com a medicina (atuou como anestesiologista no Hospital dos Servidores do Estado até aposentar-se, em 1978). Desde cedo, esbarrou em uma dificuldade: a falta dos instrumentos necessários para executar peças dos séculos 15 e 16, por exemplo. Quando descobriu que em outros países eram vendidos kits para montagem de instrumentos antigos, interessou-se. Em 1958, montou o primeiro cravo no Brasil – e não parou mais.
Sua iniciativa deu início a um ressurgimento da música antiga no País. A Camerata Antiqua de Curitiba foi resultado desse movimento e hoje é um dos polos de pesquisa e divulgação desse repertório no Brasil.
A maioria dos cravos usados hoje no país foi fabricada por Roberto de Regina. Nos anos 1980, chegou a instalar uma oficina de cravos no Solar do Barão, em Curitiba, com o apoio do então prefeito Jaime Lerner.
Janete Andrade, coordenadora de Música do Instituto Curitiba de Arte e Cultura (Icac), conta assistiu pela primeira vez a uma apresentação de Roberto de Regina em 1979, e teve a oportunidade de tocar diversas vezes com ele no Conjunto Renascentista, um grupo derivado da Camerata Antiqua, a partir da década seguinte. Mesmo quando Roberto retornou ao Rio de Janeiro e ao seu sítio em Guaratiba, voltaram e se ver várias vezes.
Na propriedade de Guaratiba, dedicava-se à montagem de miniaturas de edifícios históricos e frequentes concertos, quase sempre à luz de velas. Construiu uma capela, a Capela Magdalena, onde gravou todos os 16 Concertos para Cravo Solo de Johann Sebastian Bach.
“Ele tinha uma formação humanista muito profunda”, diz Janete. “E era um excelente pintor, fez todas as pinturas da capela.”
O que é um cravo?
O cravo é um instrumento de cordas pinçadas com teclado, surgido no século 14. Diferentemente de um piano, no qual as teclas acionam pequenos martelos que batem nas cordas para produzir som, no cravo as cordas são “beliscadas” por palhetas, como se fossem os dedos de um harpista. Foi um instrumento dominante nos séculos 17 e 18, presente em salas de concerto e palácios. Aparece com destaque na obra de Bach, Domenico Scarlatti e Georg Friedrich Händel, entre outros compositores clássicos.
Embora menos conhecido hoje, o cravo deixou um legado concreto em um outro instrumento, este bastante popular. Seu formato em asa influenciou o desenho dos pianos de cauda, surgidos mais de dois séculos depois. A organização das teclas do piano também veio dos cravos.