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Arte e recomeço

Exposição no Teatro Guaíra emociona artistas com trajetória de rua e revela histórias de superação

Mostra reuniu obras produzidas por pessoas acolhidas pela FAS e artistas que já viveram em situação de rua; retorno ao Guaíra trouxe lembranças marcantes para Dionísio José Shalski.

Exposiçåo no Teatro Guaíra de obras produzidas por artistas com trajetória de rua. Curitiba, 14/05/2026. Foto: Sandra Lima/FAS



A noite da última sexta-feira (15/5) foi de emoção, reconhecimento e recomeços no Teatro Guaíra. Antes do início do concerto Clássicos do Rock, da Orquestra Cordas do Iguaçu, o público que circulava pelos espaços de convivência e corredores do teatro encontrava telas, pinturas e muitas histórias de vida marcadas por perdas, superação e reconstrução.

A exposição reuniu 40 obras produzidas por artistas com trajetória de situação de rua e por pessoas acolhidas pela Fundação de Ação Social (FAS). Os trabalhos apresentaram diferentes olhares sobre Curitiba, com pinturas de paisagens urbanas, fauna, flora, personagens e pontos turísticos da cidade.

Mas, para os artistas, a oportunidade de expor em um dos espaços culturais mais importantes do Paraná teve um significado ainda maior, o de pertencimento.

Entre os participantes, um dos momentos mais emocionantes foi vivido por Dionísio José Skalski, de 65 anos. Curitibano, técnico eletrônico e artista autodidata, ele voltou ao Teatro Guaíra depois de 37 anos e relembrou uma passagem importante da vida, a colação de grau do curso de Administração de Empresas. Emocionado, Dionísio contou que jamais imaginou retornar ao espaço em outra fase da vida e agora como artista expositor.

Participante das oficinas de pintura do Centro POP Doutor Faivre, da FAS, ele encontrou na arte uma forma de expressão e acolhimento após enfrentar problemas familiares e passar por momentos difíceis. “Estou gostando dessa atividade porque gosto de artesanato, gosto de fazer entalhamento em madeira também”, contou Dionísio, que escolheu retratar o arquiteto Oscar Niemeyer em uma de suas pinturas.

“Me sinto privilegiado”

A emoção também marcou a fala de Pedro Henrique Siqueira, de 42 anos. Natural do Rio de Janeiro, ele começou a produzir arte enquanto vivia nas ruas e hoje é acolhido pela FAS. Durante a exposição, falou sobre o impacto que o atendimento recebido teve em sua vida.

“Eu me sinto privilegiado por ter acesso a esse serviço que é incrível, fantástico. A FAS me proporcionou ter uma vida digna, de um cidadão digno de não desistir dos próprios sonhos. Me dá apoio e toda ferramenta para sair dessa”, afirmou.

Pedro Henrique contou que, além do incentivo artístico, recebeu da FAS apoio médico, psicológico e ajuda para reorganizar a própria vida. “Além de proporcionar material, me ajudar com assistência médica, psicológica e documentação, estou sendo tratado de uma forma digna. Vou voltar a estudar também. Estou muito emocionado. Hoje, olha onde eu estou, no Teatro Guaíra”, disse.

Outro artista da exposição, Gessér Rodrigues, de 33 anos, afirmou que a arte teve papel decisivo em sua trajetória. Ele começou a desenhar ainda jovem. “A arte me ajudou a transformar, mudar a minha vida”, resumiu.

Nos últimos anos, Gessér aprofundou a relação com as telas e tintas e passou a transformar em arte as experiências acumuladas ao longo da vida. “É uma experiência transformadora. Consigo experimentar tudo o que vivi na infância através da arte. A arte tem essa coisa da liberdade, da paixão, da presença”, afirmou. Além de pintar telas, Gessér trabalha em um restaurante-escola da cidade.  

Seu trabalho carrega referências das ruas, da realidade social e dos caminhos percorridos ao longo dos anos. “Transformei os momentos difíceis que passei em arte. É o começo de uma trajetória que quero expandir pelo mundo inteiro”, disse.

Outro expositor foi Altair Gonçalves, de 72 anos, artista que frequentou a Escola de Belas Artes para aprimorar um talento que surgiu ainda cedo. Suas pinturas mostram paisagens e pontos conhecidos de Curitiba, em obras que transitam entre o clássico e o contemporâneo. Atualmente ele está em tratamento oncológico e encontra na arte uma forma de fortalecimento e expressão.

Fortalecimento de vínculos

Para a diretora de Proteção Social à População em Situação de Rua da FAS, Elis Stüpp, a arte ajuda a fortalecer vínculos e aproximar as equipes das pessoas atendidas pelos serviços. “A partir da arte, você consegue estar mais próximo daquela pessoa que mais precisa da nossa ajuda. A arte fala por si só. O artista registra ali o que ele tem de melhor naquele momento”, afirmou.

Elis destacou ainda que oportunidades como a exposição no Teatro Guaíra ajudam a reconstruir a autoestima e o sentimento de pertencimento. “Muitas vezes, a pessoa chega para nós em uma condição muito difícil e precisamos lutar muito para ajudá-la a superar essa situação. Estar aqui hoje, no Guaíra, em um espaço bonito, que para muitos deles parecia impossível, faz toda a diferença. Isso é muito importante para qualquer artista, principalmente para os nossos acolhidos e para aqueles que tiveram uma trajetória de superação”, disse.

A exposição teve a organização dos servidores da FAS Grace Puchetti Ferreira, Claudecir Marcolino da Silva, Karla Nascimento Claudino e Edna Marinho. A curadoria da mostra foi assinada por Lucas Velloso, a partir de trabalhos desenvolvidos com a Rede BASA, Galeria Geral e Sala de Arte do Canto.  

A exposição foi realizada a convite do maestro José Maria Magalhães, regente da Orquestra Cordas do Iguaçu, que há 15 anos se consolidou como um dos principais projetos culturais da cidade.