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Música erudita

Entre Gestos e Sons: Camerata Antiqua de Curitiba volta ao palco da Capela Santa Maria

Concerto traz peças de Beethoven, Camargo Guarnieri e dois compositores contemporâneos: a americana Caroline Shaw e o brasileiro-dinamarquês Andras Ellendersen

Entre Gestos e Sons, a Camerata Antiqua de Curitiba volta ao palco da Capela Santa Maria. Foto Cido Marques,

A Camerata Antiqua de Curitiba volta aos palcos na sexta (15/5) e sábado (16/5) com um programa que mescla despedidas e estreias, Américas e Europa, fé e angústia, comunidade e migração, música e silêncio. Intitulado Entre Gestos e Sons, o concerto trará peças de Ludwig van Beethoven, Camargo Guarnieri, Caroline Shaw e Andras Ellendersen, unidas por um desassossego em comum: a busca de significado diante do que escapa à linguagem.

É um concerto que convida a uma experiência de escuta um pouco diferente”, diz o maestro Ricardo Bologna, que é professor de Percussão e Regência do departamento de Música da Universidade de São Paulo e regente convidado pela Camerata para esta apresentação. “São peças que atravessam séculos desde a primeira metade do século XIX até hoje, e que faz o público refletir sobre temas universais e muito atuais, a humanidade e sua fragilidade, as questões sociais, as guerras.”

Programa

A abertura do concerto é o terceiro movimento do Quarteto de Cordas nº 16 em Fá Maior, de Beethoven. Tida como a obra de despedida do compositor alemão, o quarteto foi a última grande obra que ele completou em vida, em outubro de 1826. Foi composto por um Beethoven muito doente – ele viria a morrer em março de 1827 – e este movimento, especificamente, é considerado por alguns estudiosos como uma reflexão sobre a vida e a morte.

O programa prossegue com a primeira audição mundial de Stemning, composição para coro e orquestra do brasileiro-dinamarquês Andras Ellendersen, de 30 anos. O título significa disposição afetiva ou atmosfera em dinamarquês, e faz referência a um trecho do prólogo de Temor e tremor, livro que o filósofo Søren Kierkegaard publicou em 1843, sob o pseudônimo Johannes de Silentio (João do Silêncio). No trecho, Kierkegaard apresenta quatro reflexões sobre a história bíblica de Abraão e do sacrifício de seu filho Isaque. “É um texto muito forte, carregado de muitas emoções”, resume Bologna.

A Missa Diligite (1972), de Mozart Camargo Guarnieri, é uma das poucas peças sacras do compositor paulista. Encomendada por seus grandes amigos Nenê e Luís Medici para a comemoração de seu quadragésimo aniversário de casamento, a Missa Diligite foi escrita originalmente para meio-soprano, coro misto e órgão, recebendo posteriormente uma orquestração para cordas feita pelo próprio compositor. Bologna observa que a missa foge um pouco do nacionalismo que é característico de Guarnieri, cujas composições são marcadas por ritmos brasileiros. Nessa obra, ele usa uma sonoridade muito baseada na música medieval, ainda que com a leitura moderna do compositor. “É uma peça reflexiva, lírica, que constrói uma atmosfera de solenidade e de calor humano, reafirmando a força da música coral como espaço de comunhão”, diz Bologna.

O grande encerramento do concerto traz mais uma estreia. Será a primeira vez que a Camerata Antiqua de Curitiba apresenta To the Hands, peça coral contemporânea da americana Caroline Shaw, de 43 anos. A peça foi encomendada pelo grupo vocal The Crossing e teve sua primeira performance em junho de 2016, na Filadélfia. To the Hands é uma resposta contemporânea a Ad manus, peça que faz parte do ciclo de cantatas Membra Jesu Nostri, compostas pelo dinamarquês Dieterich Buxtehude no século XVII. “To the Hands amplia toda essa reflexão sobre a condição humana, presente nas outras peças, e traz isso para o presente”, conta Bologna.

A composição chama a atenção para problemas contemporâneos, em especial a crise global de refugiados e o acolhimento aos deslocados internos. O quinto movimento, intitulado Litany of the Displaced (Ladainha dos Deslocados, em tradução livre), enumera o número de pessoas deslocadas por país, em ordem crescente, expondo a crueza da crise migratória mundial. “É uma peça muito emocional, com uma escrita mais minimalista, que usa pequenos gestos musicais que ganham uma enorme potência expressiva”, resume o maestro.

Sobre a Camerata Antiqua de Curitiba

Criada em 1974, a Camerata Antiqua de Curitiba é um ícone da música erudita local. Mantida pela Fundação Cultural de Curitiba e administrada pelo Instituto Curitiba de Arte e Cultura, a Camerata é formada por coro e orquestra e dedica-se à pesquisa e divulgação da música antiga e contemporânea.

Serviço

Camerata Antiqua de Curitiba apresenta Entre Gestos e Sons
Data: sexta-feira (15/5), às 20h, e sábado (16/5), às 18h30
Local: Capela Santa Maria (R. Conselheiro Laurindo, 273 – Centro)
Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia), pelo site comprenozet.com.br