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Festival de Curitiba

Curitiba se consolida como polo de excelência do teatro no Brasil

De espetáculos sem espaço à energia dos grandes festivais, artistas e gestores refletem sobre a evolução das artes cênicas na capital e o papel vital do fomento público

Lala e Fiani no espetáculo “Mistério de Curitiba” de Dalton Trevisan e direção de Ademar Guerra, em 1989. Foto: Arquivo Pessoal

A história de Curitiba nas últimas quatro décadas pode ser vista no crescimento de suas ruas e parques, mas ganha ainda mais vida pelas histórias contadas em seus palcos. O teatro curitibano atravessou o silêncio da censura durante a ditadura e a falta de espaços físicos até desaguar na efervescência dos grandes movimentos culturais, com destaque para o tradicional Festival de Curitiba, que este ano está na sua 34ª edição. Até 12 de abril, são mais de 400 atrações.

Foi trilhando esse caminho que a cidade se firmou, hoje, como um polo de excelência no Brasil. No centro de tudo isso, a arte entra em cena através da paixão de seus idealizadores e do apoio municipal.

Anos 60: Os pioneiros e os palcos que ganharam nome

A base da cena teatral da cidade começou a se firmar na década de 1960. Foi um período de construção, impulsionado por talentos que hoje batizam nossos espaços culturais e fazem parte da memória afetiva da cidade. Basta circular pela capital para ver como esses pioneiros viraram endereços obrigatórios: o lendário Salvador de Ferrante dá nome ao famoso auditório do Guairinha; José Maria Santos, premiado no cinema e no palco, batizou o antigo Teatro da Classe; Cleon Jacques, expoente da vanguarda dos anos 1990, nomeia o espaço do Memorial Paranista; Antônio Carlos Kraide virou o palco do Portão Cultural; a brilhante Claudete Pereira Jorge foi eternizada no Teatro Novelas Curitibanas e a inesquecível Lala Schneider nomeia o primeiro teatro independente do Paraná, no Centro de Curitiba. 

Em 1963, 11 anos após a inauguração do Guairinha, o Curso Permanente de Teatro (CPT) foi criado pelo professor Armando Maranhão em parceria com Paschoal Carlos Magno. A idealização desse curso seria depois reconhecida como um dos marcos da consolidação do teatro profissional na cidade. A partir desse trabalho, foi criado o Teatro de Comédia do Paraná (TCP), que movimentou a cena trazendo diretores paulistas como Cláudio Corrêa e Castro e atores do quilate de Paulo Goulart e Nicette Bruno para atuarem ao lado dos locais na estreia de Um Elefante no Caos.   

De acordo com o ator e diretor João Luiz Fiani, que atualmente é o diretor de Ação Cultural da Fundação Cultural de Curitiba, o teatro curitibano se consolidou a partir de nomes como Lala Schneider, Cláudio Corrêa e Roberto Menghini, que começaram a solidificar a cena da cidade.

A efervescência dos novos talentos, somada aos cursos profissionalizantes, abriu caminho para um novo respiro para o teatro da cidade, antes dependente de produções estaduais.

Lala e Odelair

Falar dessa época é reverenciar as precursoras dos nossos palcos. A começar por Odelair Rodrigues (1935-2003). Com um talento imenso, Odelair quebrou barreiras raciais e sociais, fazendo história como a primeira atriz preta do estado a alcançar o sucesso massivo no rádio, teatro e televisão. Nos anos 1960, ajudou a fundar o lendário Teatro de Bolso e, nacionalmente, emocionou o país ao interpretar a icônica Mamãe Dolores na novela O Direito de Nascer (1966), além de ter seu rosto eternizado como garota-propaganda do Café Damasco.

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Odelair Rodrigues no Café do Teatro. Foto: Cido Marques/FCC (arquivo)

Ao lado dela, brilha a força de Lala Schneider (1926-2007). Não por acaso, ela foi eternizada como a "Primeira-Dama do Teatro Paranaense", dedicando a vida a ensinar e atuar. Com uma carreira de mais de cinco décadas, Lala atuou em mais de 76 peças teatrais, dirigiu 20 espetáculos, recebeu 12 prêmios de melhor atriz e dois de melhor direção, também foi diretora e professora de interpretação, formando gerações de novos artistas, como o próprio Fiani. Como homenagem à sua vida e história, hoje é possível encontrar o busto de Lala na praça Santos Andrade. 

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Lala Schneider. Foto: Arquivo Pessoal

A busca por espaço

Na virada dos anos 1970 para os 1980, Curitiba viveu um momento de explosão criativa. Novos grupos e atores surgiam e os espetáculos se multiplicavam. A comédia, vinda do Teatro de Comédia do Paraná, atraía grandes públicos. No entanto, essa energia esbarrava na falta de palcos.

"O grande problema é que nós só tínhamos o Teatro Guaíra para apresentar as peças. Nós não tínhamos lugar para deixar as peças em cartaz por mais tempo", relembra Fiani. 

Foi justamente dessa urgência por novos espaços que a cidade passou a ressignificar suas estruturas. Um marco pioneiro e lendário desse movimento foi a inauguração do Teatro do Paiol, em 27 de dezembro de 1971. Um antigo paiol de pólvora do Exército, construído em 1906, foi reciclado e transformado em um inovador teatro de arena circular pelo arquiteto Abrão Assad.

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Teatro Paiol sendo restaurado na década de 1970. Foto: Arquivo Público

A noite de estreia virou lenda na cultura brasileira: contou com apresentações de Toquinho, Marília Medalha e Vinicius de Moraes. Dali em diante, a pólvora daria lugar à arte.

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Marília Medalha, Vinicius de Moraes, Toquinho e o Trio Mocotó comandam o show de inauguraçao do Teatro Paiol, em 1971. Foto: Acervo Casa da Memória

Ao mesmo tempo, o país passava por uma grande transformação. O fim da ditadura militar marcou um momento de renovação para a arte. 

O diretor, dramaturgo, roteirista e ator Edson Bueno é um dos grandes destaques da cena teatral paranaense e relembra com emoção a nova fase que o fim da ditadura proporcionou.

"A retomada da liberdade de expressão devolveu ao teatro brasileiro — e ao nosso teatro em Curitiba — a possibilidade de respirar, de voltar a pensar e dizer sem o peso asfixiante da censura", analisa Bueno. “Tudo isso alterou não apenas a forma de fazer teatro, mas também a forma de recebê-lo. O público mudou, o artista mudou, o mundo mudou”, relembra.

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Peça “O homem que amava a literatura”, com texto e direção de Edson Bueno. Foto: Arquivo Pessoal

A  necessidade de criar raízes e manter peças em cartaz por mais tempo também motivou artistas a abrirem seus próprios espaços nos anos seguintes. Em 23 de abril de 1994, exatamente no dia do aniversário da atriz Lala Schneider, João Luiz Fiani decidiu prestar uma homenagem rara, ainda em vida, inaugurando o Teatro Lala Schneider no Centro Histórico de Curitiba. Foi o primeiro teatro totalmente independente do Paraná. "O Teatro Lala, por exemplo, surgiu da necessidade de eu ter um espaço onde pudesse apresentar as minhas produções. Mal sabia eu que a minha peça Casa do Terror ficaria 30 anos em cartaz", completa Fiani.

A janela para o Brasil

A criação do Festival de Teatro de Curitiba em 1992 transformou Curitiba em uma vitrine do teatro brasileiro contemporâneo. O evento, que tem apoio da Prefeitura Municipal de Curitiba, colocou a capital paranaense para conversar com o país inteiro.   

"O Festival não apenas abriu as portas de Curitiba para o teatro brasileiro, como também escancarou as janelas do Brasil para aquilo que se produzia aqui", reflete Edson Bueno. "Foi um momento em que a cidade se viu no espelho do palco e entendeu que sua voz também podia ecoar."

Essa voz forte se mantém pela qualidade técnica irretocável de seus intérpretes, com nomes reverenciados nacionalmente, como a da atriz e cantora Rosana Stavis. Profissionalizada em 1989 — ano em que já estreou vencendo o prêmio de Atriz Revelação, ela destaca o poder criativo local.

 "O grande forte de Curitiba são pessoas que se reúnem com uma ideia, uma identidade, e fazem disso um processo criativo. A formação aqui é de muita qualidade", afirma Rosana.

Rosana virou a musa de obras exigentes ao lado da Cia Stavis-Damaceno. Ela acumula impressionantes sete estatuetas do Troféu Gralha Azul. A mais recente das láureas, no 40º Gralha Azul em 2023, veio por “A Aforista”, em que divide o palco com dois pianos de cauda. A peça foi escrita e dirigida por Marcos Damaceno, diretor e dramaturgo da Cia.

"Exige uma técnica muito apurada. Ensaiamos seis meses para ficar no nível que gostaríamos. Viajamos por várias capitais do Brasil e a peça teve uma repercussão muito grande, fui indicada a todos os principais prêmios e ganhei alguns. Foi um divisor de águas na minha interpretação e na minha carreira”, conta a atriz ao ser questionada sobre o momento mais marcante de sua trajetória.


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Rosana Stavis em “ A Aforista”. Foto: Arquivo Pessoal/ Maringas Maciel

A Fundação Cultural e o fomento como motor da cidade

Hoje, a cena da cidade respira pesquisa e inovação. Manter essa engrenagem funcionando e fazer com que o teatro chegue a mais pessoas depende, diretamente, do cuidado do poder público. É nesse cenário que a Fundação Cultural de Curitiba (FCC) se firma como catalisadora do movimento artístico da capital.

Criada em 1973 para democratizar o acesso à cultura, a Fundação é uma ponte entre as ideias dos artistas e o aplauso do público. Por meio das leis de incentivo e do Fundo Municipal da Cultura, a FCC viabiliza desde a pesquisa de novas linguagens até a circulação de espetáculos pelas regionais.

Para Fiani, o momento é de esperança e valorização de quem faz a cultura acontecer todos os dias nos bastidores. "A Fundação é cada vez mais importante para a cidade. Estando aqui dentro, percebo o amor que os funcionários têm por essa instituição", relata. Ele vê no cenário atual um caminho de muito diálogo estrutural: "Temos a esperança de que o movimento cultural fique bem mais forte. O prefeito Eduardo Pimentel já foi funcionário da Fundação Cultural e tem esse cuidado. O Marino (Galvão Júnior), atual presidente, fez teatro comigo por mais de 20 anos. Temos uma prefeitura que gosta e acolhe a cultura."

O Festival de Curitiba

Nestes dias, Curitiba assiste a arte se desenrolar na 34ª edição do Festival de Teatro. Do dia 30 de março a 12 de abril, a cidade recebe mais de 400 atrações — atraindo cerca de 200 mil pessoas. É nesta grande mistura que os veteranos que abriram caminhos nas décadas passadas dividem o mesmo palco com os atores estreantes.

E, para os jovens talentos que estão pisando pela primeira vez nos palcos do Festival em meio a essa efervescência cultural, a premiada Rosana Stavis deixa um conselho.

"Se você realmente foi picado pela arte, pelo ‘bichinho do teatro’, como a gente diz, você tem que se dedicar. A gente tem que fazer aquilo que gosta. Se você é um jovem artista e apaixonado pelo que faz, abrace-se com outras pessoas que têm o mesmo pensamento que você e faça isso, porque o teatro não se faz sozinho", diz Rosana.

É justamente movido por esse espírito coletivo que a cena local projeta os seus próximos passos. Ao revelar suas expectativas para o Festival e para o caminho que a arte da capital paranaense deve trilhar, Edson Bueno aponta a direção. “E quanto ao teatro de que Curitiba precisa, talvez seja justamente aquele de que sempre precisou e que sempre perseguiu: um teatro livre, inquieto, reflexivo, generoso e necessário. Um teatro que não se ajoelhe diante das fórmulas, que não tema a complexidade do mundo e que seja capaz de traduzir, com singularidade e coragem, a visão de seus criadores. Não importa a estética. Importa que tenha pulsação, pensamento, alma e respire liberdade.”