Curitiba está trabalhando na elaboração de um Plano de Logística Urbana para a cidade. A intenção é organizar a circulação de mercadorias, essencial para manter o funcionamento dos setores de comércio e de serviços, de forma que cause o menor impacto possível sobre a mobilidade urbana. Uma pesquisa de origem e destino de mercadorias foi realizada no ano passado e, esta semana, o tema foi discutido num seminário.
Hospitais, supermercados, farmácias, restaurantes, distribuidores de gás de cozinha, lojas de roupas, eletrodomésticos e móveis são alguns exemplos de negócios que têm como ponto vital o recebimento de mercadorias. Por outro lado, cresce a cada dia o número de encomendas feitas por internet ou telefone que demandam entregas diretas nas casas dos consumidores. Tudo isso torna necessária a elaboração do Plano de Logística.
Realizado nesta quarta-feira (22), no Salão de Atos do Parque Barigüi, o 3º Seminário de Logística Urbana reuniu representantes do poder público municipal, especialistas do setor de logística, empresários e líderes de entidades comerciais e industriais. Foi uma parceria entre o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), com o propósito de reunir subsídios para a elaboração do Plano Piloto de Logística Urbana. “Entre todas as cidades da América Latina e Caribe, escolhemos Curitiba para a realização desse Plano Piloto pelo histórico de inovação na área de planejamento urbano”, destacou Reinaldo Daniel Fioravanti, especialista em Transporte e Logística do BID.
“As pessoas querem ter acesso rápido aos produtos e serviços, mas ninguém deseja um caminhão estacionado na frente de casa. Então, essa é uma questão delicada”, completou Fioravanti. “Precisamos de um plano bem estruturado que seja realizado em consenso com a comunidade. Afinal, o transporte de bens contribui para o desenvolvimento e para a competitividade das cidades”, salientou o presidente do Ippuc, Sérgio Póvoa Pires.
Já o professor Orlando Fontes Lima Júnior, coordenador do Centro de Logística Urbana do Brasil (CLUB), órgão vinculado à Universidade de Campinas, lembrou que, desde 2008, a maior parte da população brasileira passou a viver nas cidades.“É preciso refletir: nenhuma cidade alimenta a si mesma. Sendo assim, o correto fluxo de mercadorias é essencial para assegurar o atendimento e o conforto dos cidadãos, assim como o incremento das atividades econômicas”, disse Lima Júnior.
O professor da Unicamp também lembrou que a análise do “metabolismo urbano” ajuda a definir a logística. Segundo ele, 15% dos consumidores brasileiros vivem sós. São pessoas com perfil diferenciado, que adquirem produtos de volume menor, com alto valor agregado, e demandam atendimento diferenciado em suas residências ou locais de trabalho. “Isso exige uma operação pulverizada de logística. Produtos e clientes diferentes exigem entregas diferentes”, salientou Lima Júnior.
Radiografia
O Plano de Logística Urbana de Curitiba será elaborado com base em análises realizadas por empresa especializada no ramo, a LOGIT, contratada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento com essa finalidade. A empresa também fornecerá ao Município uma ferramenta que irá permitir a simulação de diferentes cenários, para que se possa definir o melhor local para a implantação de um Centro de Distribuição de Mercadorias em Curitiba. Iniciado em 2010, o projeto deve ser concluído no primeiro semestre deste ano.
De acordo com os estudos realizados até agora, a distribuição de mercadorias em Curitiba é complexa em função de sua dinâmica econômica e também pela concentração populacional. A cidade possui a 8ª maior população do Brasil (1,8 milhão de habitantes / IBGE 2010), além de ser a 7ª maior capital em densidade demográfica, com 4.027 habitantes por km². A frota de veículos já é a 4ª maior do Brasil, com cerca de 1,3 milhão (Detran / Jan 2013). Curitiba também apresenta o 4º maior PIB do país, estimado em R$ 53 bilhões.
Dentro desse cenário, foi realizada uma pesquisa de origem-destino, entre abril e maio de 2013, para demonstrar como se caracterizam as viagens de entregas de mercadoria dentro do município e suas interações com a região metropolitana. Foram realizadas 830 entrevistas na área central da cidade que resultaram em mais de 4 mil pares de dados de origem-destino.
As análises revelaram que a maior parte da carga tem origem nos bairros mais afastados, ou fora da cidade. Já a maior parte das entregas se concentra na área central de Curitiba. Por meio de contagens volumétricas e simulações foram identificados os principais corredores de carga. São vias que apresentam bastante movimento e com um grau de saturação de 33%, aproximadamente.
Também foram relatados os seguintes problemas pelos transportadores de cargas: dificuldade para encontrar vagas de estacionamento, automóveis estacionados em vagas de caminhões, dificuldade para realizar operações de carga e descarga, veículos estacionados em fila dupla, risco de acidentes entre veículos, pedestres e ciclistas, além de restrições de circulação no Centro e na Linha Verde.
Centro de Distribuição
Segundo Sérgio Demarchi, especialista em planejamento de transporte e gerente de projeto da LOGIT, as pesquisas indicam que há muitas vantagens na implantação de um Centro de Distribuição em Curitiba. “A cidade poderá ter um local para receber as mercadorias trazidas por caminhões de grande porte, com circulação noturna. Desse local, os bens seriam transportados para o destino final, em veículos pequenos, durante o dia”, explica Demarchi.
Simulações de tráfego apontam melhorias logísticas, a começar pela redução diária de veículos de carga na área central da cidadeda ordem de 16% (de 4.323 para 3.637), além da redução da distância total percorrida pelos veículos de carga em 15% (de 13.510 km para 11.527 km).
Os estudos também indicam que a implantação de um Centro de Distribuição de Mercadorias pode trazer impactos bastante positivos para a cidade, a começar pela melhor organização do trânsito, redução das emissões de gases de efeito estufa e melhoria no abastecimento das lojas participantes. “Dentro desse cenário, a previsão é de continuidade de crescimento econômico na região central sem que isso resulte em aumento de congestionamento no trânsito. Além disso, haveria muitas vantagens para quem fornece mercadorias, para os transportadores e para quem recebe os produtos”, enfatiza Demarchi.
O projeto vem ao encontro das necessidades de quem vive o dia a dia da logística. Rogério da Silva, que é gerente operacional de encomendas de uma transportadora, aponta as dificuldades enfrentadas na situação atual. “Hoje o estoque representa 30% do custo do produto. Por isso, as mercadorias precisam ser entregues com rapidez. Penso que um Centro de Distribuição seria muito bem vindo para nos auxiliar a manter os prazos de entrega, tendo o cuidado de evitar o excesso de manuseio e garantindo a rastreabilidade do produto”, conclui Rogério da Silva.
“Quando a ferramenta de simulação de cenários estiver pronta, vamos avaliar qual será o melhor local para a implantação do Centro de Distribuição, seu tamanho, restrições, parcerias e modo de operação. Tem de ser um modelo que traga benefícios para o poder público, para a iniciativa privada, para os consumidores e para a cidade como um todo”, finaliza o presidente do Ippuc, Sérgio Póvoa Pires.