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Por trás do crachá

Cuidado que atravessa fronteiras: acolhimento e escuta superam barreiras de idioma na Saúde

Ação no Distrito Sanitário do Tatuquara garantiu que gestante migrante recebesse orientações sobre aleitamento e cuidados com o bebê por meio de tradução em tempo real

O nutricionista e residente em Saúde da Família Thiago Augusto Biscouto, que atua nas unidades do Distrito Sanitário do Tatuquara. Curitiba 04/09/2026. Foto: Ricardo Marajó/SECOM

Texto: Millena Lechtchechen, sob supervisão de Themys Cabral
Prefeitura de Curitiba

Sentada no meio da sala, em silêncio e atenta a cada movimento, uma gestante migrante, recém-chegada do Zimbábue (África), participava pela primeira vez de uma oficina de saúde em Curitiba. Já na reta final da gestação, por volta da 37ª semana, ela não falava uma única palavra em português, o que tornava o acesso às informações um desafio que parecia impossível de ser superado. Ao perceber a dificuldade causada pela barreira do idioma, o nutricionista e residente em Saúde da Família, Thiago Augusto Biscouto, 43 anos, tomou a iniciativa de ocupar o papel de ponte entre ela e a equipe.

Com a tradução simultânea português/inglês, o residente permitiu que a futura mãe participasse ativamente do encontro. Ao longo da oficina, ela tirou dúvidas e, ao final da dinâmica, deixou anotações destacando o aprendizado sobre o parto natural e a relevância do aleitamento materno nos primeiros meses, junto de um agradecimento pela sensibilidade do profissional.

Segundo Thiago, a presença de pessoas migrantes é uma realidade frequente nos atendimentos da região, o que demanda sensibilidade redobrada dos profissionais para garantir o acesso universal à saúde. “Faz diferença quando eles veem que a gente está interessado. Alguns chegam com receio na unidade ou nas oficinas, com aquele medo mesmo de que vão ser julgados ou deixados de lado. E fazemos esse esforço para incluir sempre”, diz.

Para o residente, a prática no Sistema Único de Saúde (SUS) vai além dos procedimentos técnicos. “A gente vê como é importante para a paciente, o quanto elas se sentem acolhidas e o quanto muda a feição delas no momento em que percebem que vão ser acolhidas e cuidadas”, ressalta.

O caminho até o SUS

A dedicação em enxergar o ser humano por trás de cada prontuário acompanha a história de Thiago Biscouto. Até atuar como residente R1 de Nutrição em Saúde da Família no programa oferecido pela Secretaria Municipal da Saúde (SMS), por meio da Fundação Estatal de Atenção à Saúde (Feas), ele percorreu um longo caminho até a saúde pública.

Sua primeira graduação foi com licenciatura e bacharelado em Educação Física. Durante os anos de formação e atuação profissional em academias, participou de grupos de pesquisa voltados para crianças e adolescentes com obesidade, sobrepeso e diabetes tipo 2, desenvolvendo uma atenção direcionada à saúde e ao processo pedagógico de ensinar e acolher.

Em 2016, impulsionado pela vontade de aprofundar esse cuidado, iniciou a faculdade de Nutrição, e se formou  logo após a pandemia. E foi conversando com colegas de profissão, que escolheu a nova especialização, pensando em vivenciar a prática diária do atendimento público.

Para Thiago, a experiência de campo transforma a teoria acadêmica em vivência real. “Quando chegamos no trabalho de campo, na residência, percebemos a realidade dos pacientes, suas necessidades e suas histórias. O atendimento e o cuidado se tornam mais humanos, não apenas sobre números e dados.”, reflete o nutricionista.

O profissional ressalta que seu principal propósito no contato cotidiano com a comunidade é incentivar o valor do autocuidado e da dignidade de cada cidadão. “É fazer com que as pessoas também se vejam como indivíduos que merecem ter cuidado, atenção e carinho e que não são só mais um na empresa, no ônibus ou na comunidade. Que elas se reconheçam, cuidem da própria saúde e saibam que vale a pena cuidar de si mesmas”, finaliza.