Um antropólogo curitibano com raízes nas geladas Ilhas Faroé e uma musicista americana ganhadora de cinco prêmios Grammy estão no programa do próximo concerto da Camerata Antiqua de Curitiba, nos dias 15 e 16 de maio. No ambiente da música erudita, frequentemente lembrado por compositores que atuaram mais de um século atrás, eles são exemplos de autores vivos e em atividade.
O concerto Entre Gestos e Sons trará peças de Ludwig van Beethoven, Camargo Guarnieri, Caroline Shaw e Andras Ellendersen. “É uma travessia entre diferentes linguagens, diferentes tempos e também diferentes espiritualidades, unindo peças que compartilham uma profunda reflexão sobre a condição humana e a transcendência sonora”, diz o maestro Ricardo Bologna, que é professor de Percussão e Regência do departamento de Música da Universidade de São Paulo e regente convidado pela Camerata para esta apresentação.
O programa inclui quatro peças. A abertura é com o terceiro movimento do Quarteto de Cordas nº 16 em Fá Maior, de Beethoven, a última grande peça que o alemão compôs. Na sequência vem Stemning, composição para coro e orquestra do brasileiro-dinamarquês Andras Ellendersen, de 30 anos. Segue-se a Missa Diligite, de Camargo Guarnieri, uma das poucas peças sacras do compositor paulista. No encerramento surge To the Hands, peça coral contemporânea de Caroline Shaw.
Aos 43 anos, Shaw tem uma atuação ampla como produtora, compositora, violinista e vocalista e inclui trabalhos tão diversos como a criação de música para trilhas sonoras e colaboração com artistas pop como espanhola Rosalía e Kanye West. Ela foi indicada sete vezes ao Grammy, principal prêmio da indústria fonográfica de seu país, e conquistou cinco estatuetas: melhor performance em música de câmara, em 2014, 2020, 2024 e 2025, e melhor composição clássica contemporânea, em 2022. Seu reconhecimento levou a um doutorado honoris causa concedido pela prestigiosa universidade de Yale e o prêmio Pulitzer de Música, concedido em 2022.
Será a primeira vez que a Camerata executa To the Hands. A composição chama a atenção para problemas contemporâneos, em especial a crise global de refugiados e o acolhimento aos deslocados internos.
Já o curitibano Ellendersen tem relações antigas e familiares com a Camerata. A avó Ruth Jucksch, a mãe Bettina Jucksch, e o pai Atli Ellendersen, todos violinistas, e o tio Thomas Jucksch, violoncelista, integraram a Camerata em algum momento de suas carreiras. Andras teve uma relação de idas e vindas com a música. Desistiu de uma graduação em Composição e Regência na Unespar e acabou por formar-se em Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia, na Universidade Federal do Paraná.
Ellendersen passou a circular entre o Brasil e a Dinamarca depois que seu pai se mudou para lá, em 2019. As raízes da família estão nas Ilhas Faroé, arquipélago com 55 mil habitantes que constituiu uma região autônoma no Reino da Dinamarca, e ele desenvolveu projetos musicais na região. Um deles, em parceria com o quarteto polonês Kwartludium, resultou em concertos realizados realizados nas ilhas, no ano passado, e deve resultar em um álbum a ser gravado no fim deste ano.
Stemning, a obra de Ellendersen que será apresentada pela Camerata, é resultado das pesquisas do compositor para seu mestrado em Música na UFPR, no campo da écfrase musical – ou seja, a tentativa de transpor uma outra forma de arte (nesse caso, a literatura) para a música. O título significa “disposição afetiva” ou “atmosfera” em dinamarquês, e faz referência a um trecho do prólogo de Temor e tremor, livro que o filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard publicou em 1843. No trecho, Kierkegaard apresenta quatro reflexões sobre a história bíblica de Abraão e do sacrifício de seu filho Isaque. Ellendersen busca trazer para a música a atmosfera da experiência de fé de Abraão como algo incomunicável. “É uma espécie de acordo secreto entre ele e Deus”, resume o compositor.
Sobre a Camerata Antiqua de Curitiba
Criada em 1974, a Camerata Antiqua de Curitiba é um ícone da música erudita local. Mantida pela Fundação Cultural de Curitiba e administrada pelo Instituto Curitiba de Arte e Cultura, a Camerata é formada por coro e orquestra e dedica-se à pesquisa e divulgação da música antiga e contemporânea.
Serviço
Camerata Antiqua de Curitiba apresenta Entre Gestos e Sons
Data: sexta-feira (15/5), às 20h, e sábado (16/5), às 18h30
Local: Capela Santa Maria (R. Conselheiro Laurindo, 273 – Centro)
Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia), pelo site comprenozet.com.br