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Patrimônio cultural

Começa a nova etapa da restauração de pintura histórica sobre a formação territorial de Curitiba

Quadro de 1922, assinado por Belmiro Barbosa de Almeida, retrata um episódio ocorrido em 1755, ligado à consolidação administrativa e territorial da então Vila de Curitiba

Belmiro, obra em Restauro. Curitiba, 11/06/2026. Foto: Cido Marques/FCC

A restauração da pintura Acto da Demarcação do Districto da Villa de Curityba, uma das obras mais importantes do acervo artístico do município, entrou em uma nova fase. Após quase seis meses de trabalho concentrado na parte de trás da tela, a restauradora Cláudia Calasans iniciou as intervenções para começar os cuidados com a face principal da pintura, etapa considerada uma das mais delicadas de todo o processo.

Assinada em 1922 pelo artista Belmiro Barbosa de Almeida, a obra foi retirada em janeiro do Salão Nobre do Palácio 29 de Março, sede da Prefeitura, e transferida para o ateliê da restauradora, no Alto da XV. Ao longo das décadas, a pintura sofreu danos causados pela ação do tempo. O processo de recuperação começou com um amplo mapeamento fotográfico, registrando manchas, desgastes e alterações acumuladas.

Até agora, os trabalhos estiveram concentrados no verso da tela, onde foram realizados procedimentos de limpeza e reparos estruturais no tecido que serve de suporte para a pintura. Com 2,5 metros de altura por 4,5 metros de largura, o quadro ocupa praticamente toda a sala do ateliê.

Nesta nova etapa, a tela foi dividida em quadrantes com o auxílio de fitas de marcação, para que o trabalho seja realizado com mais controle em cada área trabalhada. Antes de começar a limpeza da pintura, a restauradora está fazendo testes para identificar os métodos e técnicas mais adequadas, sem comprometer a pintura original.

"O processo exige muita observação, paciência e cuidado. Cada área da obra pode reagir de forma diferente aos procedimentos de limpeza", explica Cláudia Calasans.

A previsão é que os trabalhos sejam concluídos em novembro de 2026, quando a tela volta para a parede do Salão Nobre, onde ocorrem reuniões e eventos da cidade.

Documento ajuda a contar a história da obra

Paralelamente ao processo de restauração, uma descoberta realizada pela Diretoria de Patrimônio da Fundação Cultural de Curitiba trouxe novas informações sobre a pintura. 

Durante pesquisas no acervo documental da Casa da Memória, foi localizada uma carta escrita pelo próprio Belmiro Barbosa de Almeida em 1921 e enviada ao historiador Romário Martins (1874-1948). No documento, o artista relata que estava executando a pintura a partir de um croqui elaborado em 1915 e aprovado pelo então governo de Curitiba.

"A gente não sabe se ele estava se referindo ao governo do Estado do Paraná ou ao prefeito de Curitiba, o que é mais provável, já que a obra integra a coleção do município. Nesse caso, a aprovação desse croqui possivelmente tenha sido feita pelo então prefeito Cândido de Abreu", explica Claudia Klein Arioli, coordenadora de Preservação e Conservação de Acervos da Fundação Cultural de Curitiba.

Segundo ela, a correspondência representa uma importante fonte histórica sobre a origem da pintura. "Esse documento é um achado muito importante porque até então existiam poucas informações sobre essa obra. Trata-se de um relato de próprio punho do artista, que ajuda a compreender melhor o contexto em que a obra foi concebida", destaca.

A pintura retrata um episódio ocorrido em 1755, ligado à consolidação administrativa e territorial da então Vila de Curitiba. A cena faz referência às disputas de limites que marcaram a ocupação do território colonial português após o Tratado de Madri.

Na composição, o Rio Pelotas, na divisa de Santa Catarina com o Rio Grande do Sul, aparece como marco geográfico usado para definir a fronteira meridional do município, mostrando a presença administrativa portuguesa na região do Sul do Brasil. Nessa época, a Vila de Curitiba se estendia até lá.

O artista

Belmiro Barbosa de Almeida (1858-1935) foi um dos mais importantes pintores brasileiros de sua geração. Formado pela Academia Imperial de Belas Artes, destacou-se inicialmente pela pintura histórica e de gênero e tornou-se um dos introdutores do impressionismo no Brasil.

Sua produção é marcada pelo rigor técnico, pelo domínio do desenho e pelo refinado tratamento da luz, características que podem ser observadas em Acto da Demarcação do Districto da Villa de Curityba, uma das obras de maior relevância histórica e artística preservadas pelo município.