Texto: Matheus Hildebrando Neme
Secretaria Municipal da Comunicação Social (Secom)
Texto: Matheus Neme (sob supervisão de Guilherme Voitch) | Edição: Aline Kozak
Prefeitura de Curitiba
A derrota por 1 a 0 para a Escócia na estreia da Copa do Mundo não diminuiu o entusiasmo dos torcedores haitianos. Depois de mais de cinco décadas, o Haiti voltou à principal competição do futebol mundial com um primeiro jogo equilibrado.
No segundo jogo, nesta sexta-feira (19/6), às 21h30, o Haiti enfrentará o Brasil em uma partida cercada de expectativa dentro e fora de campo. Para parte da comunidade haitiana que vive na cidade, o confronto representa mais que um jogo: em campo, estarão as seleções do país onde nasceram e do país que os acolheu e que muitos aprenderam a admirar ainda na infância. Entre eles estão Fritzline Smayky e Wilzort Cenatus, dois amigos haitianos que escolheram Curitiba para morar.
Duas torcidas
Nascida na comuna de Ganthier, no Haiti, Fritzline Smayky, de 24 anos, cresceu acompanhando futebol e torcendo pela seleção brasileira muito antes de morar aqui. Hoje, divide a rotina entre o trabalho no Hospital da Cruz Vermelha, a graduação em Enfermagem na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e os treinos de futebol.
“Desde o Haiti eu torcia para o Brasil e quando cheguei aqui continuei torcendo. Lembro que assisti à eliminação (do Brasil) para a Alemanha em 2014 e chorei muito”, conta Fritzline.
Às vésperas do confronto entre Brasil e Haiti pela Copa do Mundo, o sentimento é diferente. Pela primeira vez ela tem a oportunidade de ver seu país disputar o torneio, algo que não acontecia há 52 anos e que mobiliza gerações inteiras de haitianos.
“Estou animada, é a primeira vez que várias pessoas estão vendo o Haiti em uma Copa do Mundo. No próximo jogo, claro que gostaria que o Brasil ganhasse, mas estou torcendo muito pelo meu país também. Minha torcida vai primeiro para o Haiti”, comenta.
A chegada em ano de Copa
A mudança para o Brasil aconteceu em 2014. Inicialmente, Fritzline e sua família se instalaram em Santa Catarina, mas poucos meses depois seguiram para Curitiba, onde vivem até hoje. Os primeiros contatos foram marcados pelas diferenças culturais, mas a adaptação aconteceu de forma natural.
“A comida, o idioma, a música, tudo era diferente. Acho que por eu ter vindo bem jovem me adaptei mais rápido. Foi repetindo palavras no cotidiano, convivendo com amigos e vizinhos que tudo foi mais fácil”, explica.
Hoje, Curitiba é um lugar que ela não pensa em trocar. Foi também a cidade em que o futebol ganhou ainda mais espaço na sua vida. Apesar de sempre ter gostado do esporte, Fritzline só começou a jogar no ano passado, durante uma atividade promovida pela comunidade haitiana.
O que começou como diversão ficou cada vez mais sério e ela passou a treinar regularmente com uma equipe feminina e a participar de atividades esportivas da universidade. Atualmente, a jogadora que atua como ala direita mantém treinos semanais, conciliando esporte, estudos e trabalho.
“Comecei como diversão, o pessoal foi incentivando e fui gostando cada vez mais. Eu amo muito o esporte e sempre estive ligada ao futebol, desde que cheguei aqui durante a Copa de 2014. Quero continuar evoluindo cada vez mais e seguir jogando”, diz.
Universidade, acolhimento e comunidade
Se Fritzline fez do esporte um espaço de integração, Wilzort Cenatus, de 33 anos, encontrou na educação uma forma de construir pontes. Nascido em Lascahobas, Wilzort chegou ao Brasil em 2015 para buscar uma formação. E achou. Ele é formado em Agronomia pela UFPR, mestrando em Meio Ambiente e Desenvolvimento, conselheiro estadual do Conselho de Promoção da Igualdade Racial e presidente da União da Comunidade dos Estudantes e Profissionais Haitianos (Uceph).
A escolha por Curitiba aconteceu depois do convite de um amigo que já morava na cidade. Pensando em estudar, Wilzort não esperou duas vezes antes de embarcar rumo à capital paranaense.
“Eu vim direto para Curitiba e não cheguei a morar em nenhuma outra cidade, mas não trocaria aqui por nada. No início, alguns desafios são um pouco complicados. O idioma sempre é a maior barreira, mas aqui eu também sofri com o frio”, conta Wilzort.
O fluxo migratório haitiano cresceu principalmente após o terremoto que atingiu o país em 2010. Em Curitiba, a comunidade passou a ganhar força ao longo da última década e hoje está entre os grupos migrantes mais presentes na cidade. Segundo dados divulgados pelo Observatório Regional de Governança Migratória, desde o terremoto, 7.473 haitianos solicitaram residência na capital paranaense.
Foi acompanhando essa realidade que Wilzort percebeu que muitos migrantes desconheciam oportunidades de ingresso no ensino superior e tinham dificuldades para acessar informações sobre documentação permanência no país.
Dessa percepção nasceu a Uceph. Criada em 2018, a organização atua na orientação para processos universitários, validação de documentos, apoio a estudantes e acolhimento da comunidade haitiana. Ao longo dos anos, o trabalho também passou a incluir ações sociais, cursos e projetos culturais.
“Queremos que os migrantes tenham uma inserção real na sociedade. O fluxo de pessoas vindas do Haiti ainda é muito recente, com um crescimento enorme a partir de 2010. Por isso, nós tentamos ajudar, capacitar, formar parcerias e apoiar o pessoal que chega até a Uceph.”
Desde a fundação, a Uceph já atendeu mais de 500 famílias e conta com mais de 15 projetos que vão desde cursos de idiomas, como crioulo haitiano e português, até distribuição mensal de cestas básicas.