Texto: Franco Iacomini Junior
Secretaria Municipal da Comunicação Social (Secom)
Quando subiu ao palco do auditório Cláudio Santoro, a violinista Vanessa Savytzky Schiavon estava reencontrando um velho conhecido. Ela já pisou incontáveis vezes as tábuas de madeira da sala de concertos, uma das sedes do Festival de Inverno de Campos do Jordão, na Serra de Mantiqueira (SP). “Minha primeira passagem pelo festival foi em 1980”, conta. De lá para cá, seja como estudante ou como musicista da Camerata Antiqua de Curitiba, ela tocou em inúmeras edições do evento, que é um marco na formação de muitos músicos.
Como um dos grupos mais reconhecidos do país tanto em qualidade artística como por seu trabalho de pesquisa, resgate e divulgação da música antiga, a Camerata Antiqua não poderia estar fora do festival. A formação se apresentou completa, com coro e orquestra, na noite desta sexta-feira (31/7), com um programa todo dedicado ao compositor austríaco Franz Joseph Haydn (1732-1809), um dos mais importantes compositores do Classicismo e componente da chamada Primeira Escola de Viena, que inclui também Wolfgang Amadeus Mozart – de quem era um grande amigo – e Ludwig van Beethoven. O mesmo concerto foi apresentado na Capela Santa Maria, em Curitiba, no fim de junho, e será levado à Sala São Paulo, na capital paulista, neste sábado, 1º de agosto.
Na regência da Camerata está o maestro convidado Tobias Volkmann, outro veterano do festival. “Vim como estudante duas vezes”, disse, “e nos últimos dois anos estive aqui como diretor artístico da Orquestra Sinfônica da Universidade de São Paulo”. Volkmann é também um aficionado da Camerata Antiqua. “Um grupo muito especial. Nós nos divertimos bastante na preparação desse repertório.” O quarteto de solistas é composto pela soprano Marília Vargas, pela mezzosoprano Carolina Faria, pelo tenor Maico Sant’Anna e pelo barítono Norbert Steidl.
O Festival de Campos do Jordão é o mais importante evento de música erudita do país, e está neste ano em sua 56ª edição, espalhada por seis espaços na cidade serrana e três ambientes na capital paulista, incluindo a Sala São Paulo, uma das mais modernas e bem equipadas salas de concerto do mundo. Com um programa pedagógico – que inclui 140 bolsas de estudo em dois ciclos para jovens músicos (solistas vocais e instrumentistas) – e de concertos, o festival reuniu em torno da música erudita 240 alunos e 50 professores, gente de oito países. Ao todo 90 concertos compuseram a programação, que se encerra neste domingo (2/8), com três apresentações em Campos do Jordão e um concerto em São Paulo, com a Orquestra do Festival de Inverno, formada por 104 alunos dos cursos.
Janete Andrade, coordenadora de Música do Instituto Curitiba de Arte e Cultura (Icac), e Darci Almeida, coordenadora executiva da Camerata Antiqua de Curitiba, também têm boas recordações do evento. Se hoje trabalham juntas pela música em Curitiba, parte disso se deve a uma amizade que começou em Campos do Jordão, em 1982. Darci vivia em Angra dos Reis (RJ) e foi ao festival para aprofundar-se no canto coral. Janete viajou a partir de Curitiba, com um grupo de música renascentista que fazia parte da Camerata Antiqua à época. “Foi aí que começou uma amizade que já dura mais de 40 anos”, conta Janete.
“A gente vinha para cá e passava um mês em alojamentos coletivos, respirando música o dia todo”, diz Dan Tolomony, violinista da Camerata e veterano de Campos do Jordão.
Mas não é só de nostalgia que vive o festival. O cantor goiano Gustavo Chal deslocou-se a Campos do Jordão no sábado só para o concerto da Camerata. Ele vinha do Rio de Janeiro, onde tinha compromissos profissionais, e soube que sua professora de canto, a solista Carolina Faria (quem, entre outras atribuições, é professora responsável pela etapa pedagógica do Festival de Ópera do Theatro da Paz, em Belém), estaria presente. Não teve dúvidas, dirigiu para a serra. “Fiquei encantado, foi muito bonito o espetáculo”, contou.
Chal tem três discos gravados em estúdio e prepara-se para gravar o quarto. Seu estilo é bem diferente da música da Camerata – ele toca uma fusão do rock com a música rural do interior goiano, um tipo de country rock. Mas a influência do erudito está cada vez mais presente. “As aulas que eu tive mudaram o meu canto, hoje tenho mais domínio da minha voz”, diz. “A Carolina está querendo me treinar para canto lírico. Vamos lá, vamos fazer...”
Sobre a Camerata Antiqua de Curitiba
Mantida pela Prefeitura de Curitiba por meio da Fundação Cultural de Curitiba e do Instituto Curitiba de Arte e Cultura, a Camerata Antiqua de Curitiba foi criada, em 1974, pelo maestro Roberto de Regina (1927-2025) e pela cravista Ingrid Seraphim. A proposta inicial de execução exclusiva de música barroca e renascentista foi enriquecida com o acréscimo de um repertório de compositores contemporâneos nacionais e estrangeiros, abrindo novas vertentes musicais. O grupo realiza várias apresentações no Brasil e no exterior, nas quais mostra a sua versatilidade em um repertório com obras de grandes nomes da música erudita mundial.