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Regional Santa Felicidade

Aos 50 anos, Conjunto Saturno mantém tradição de participação popular e laços entre gerações

Empreendimento no bairro Santo Inácio foi criado, em 1976, para 409 famílias

Aos 50 anos, Conjunto Saturno mantém tradição de participação e laços entre gerações no noroeste da cidade. Na foto, Caroline Laureano Martins. Curitiba, 16/04/2026. Foto: Valquir Kiu Aureliano/SECOM

Texto: Marina Anater
Prefeitura de Curitiba

Cinquenta anos atrás, quando a população de Curitiba era estimada em 765 mil pessoas, mais de um milhão a menos do que a atual, foi inaugurado, no bairro Santo Inácio, um residencial que transformou a vida de 409 famílias e o cenário da região noroeste da cidade, o Conjunto Saturno.

Aos 85 anos, o primeiro morador e fundador da associação de moradores, Mauro Algacir da Costa, lembra com saudosismo e orgulho da trajetória do local. “Vários foram os desafios para habitar as casas, o pavimento, por exemplo, nós que pagamos na época. Mas tudo valeu a pena, houve conquistas de vital importância, e hoje é um dos melhores lugares para morar”, afirmou.

A Associação foi fundada em 21 de abril de 1976, pouco menos de um mês depois da inauguração do Conjunto, em 29 de março. “A construção das casas durou cerca de três anos, e a entrega das chaves foi muito curiosa e emocionante, por meio de um sorteio no Estádio Couto Pereira”, lembrou Mauro.

A construção do Saturno foi fundamental para o desenvolvimento da região que hoje compreende a Regional Santa Felicidade. Além de gerar empregos durante as obras, o empreendimento impulsionou a estruturação de uma área que ainda tinha características semirrurais, com a chegada de comércio, escolas, unidade de saúde e transporte público, demandas que partiram dos próprios moradores.

“O Conjunto Saturno é uma referência para os moradores do bairro Santo Inácio, bem como para a Regional de Santa Felicidade. Um modelo de dedicação e empenho das lideranças na busca de melhorias, transformou-se num conjunto onde o orgulho e moradores habitam no mesmo espaço”, afirmou o administrador regional de Santa Felicidade, José Dirceu de Matos.

Mary Solange Nascimento, professora aposentada e moradora do Saturno, relembra do início. “Antes de vir para cá eu morava no Capão Raso. O ônibus parava na frente da minha casa, e era perto de tudo. Chegamos aqui em 76 e não tinha nada, a rua era de saibro, faltava água, luz, infraestrutura. Mas isso mudou”, contou.

Força feminina

A Associação de Moradores ampliou seu papel para além do conjunto, participando de conquistas importantes para toda a região, além de atuar na interlocução com a Regional Santa Felicidade.

Em 1984, as mulheres protagonizaram um marco na história da associação ao vencerem a eleição para a presidência com 180 votos, contra menos de 40 da chapa adversária, formada por homens. Mauro estava nos Estados Unidos na época e não participou do pleito.

A vitória foi cercada de preconceito, como relembra Wanda Morais, presidente vencedora em 1984 e atual. “Mesmo com a diferença expressiva em votos, muitos duvidaram de nós. Chegaram a publicar em um jornal na época: ‘Mulher só sabe pilotar fogão’, mas nós somos atrevidas e mostramos para eles que, como donas de casa, educamos os filhos, somos professoras, médicas, enfermeiras e administradoras”, disse.

As moradoras se organizaram e passaram a atuar ativamente na gestão da comunidade, organizando eventos, fazendo ações sociais e participando de conselhos governamentais. 

Atualmente, membros da Associação se reúnem semanalmente, realizando atividades como tricô, crochê, costura e grupos da terceira idade, fortalecendo os laços comunitários ao longo dos anos.

Herança

Das 409 casas entregues em 1976, a grande maioria permaneceu com as mesmas famílias, embora muitas tenham passado por reformas que tornaram suas fachadas praticamente irreconhecíveis.

O projeto original previa quatro tipos de plantas, variando de 40 m² a 80 m². “É um lugar muito bom de morar, ninguém quer sair daqui. Como fomos melhorando economicamente, fomos ampliando nossas próprias residências para abrigar as famílias que cresceram”, contou Mauro Algacir. 

Com o passar dos anos, a convivência entre os moradores também se ampliou, fortalecendo o senso de comunidade e solidariedade, inclusive em momentos de necessidade. “Muitos dos senhores já partiram, mas deixaram de herança essa comunidade para os filhos, criar crianças aqui foi maravilhoso, todo mundo se ajudando”, destacou Mary Solange.

Hoje, o sentimento predominante entre os moradores é de pertencimento, com famílias que optaram por permanecer no local ao longo das gerações. A estudante de Psicologia Caroline Laureano Martins, de 31 anos, representa a terceira geração de moradores e afirma que não pretende sair do bairro.

“Eu nasci e cresci aqui. Morei por cerca de três anos em outros bairros e quando voltei sabia que era para ficar. Aqui temos uma comunidade e eu espero que a gente consiga levar esses laços para as próximas gerações, porque não tem preço”, contou Carol.