A história da pavimentação em Curitiba está diretamente ligada à forma como a cidade se organizou para que a pessoas pudessem se deslocar. Ao longo do século 20, a evolução do sistema viário caminhou ao lado das transformações no transporte coletivo.
No fim do século 19, as ruas estreitas e muitas vezes sem alinhamento refletiam uma cidade onde o deslocamento era feito a pé, em carroças ou por meio de bondes com tração animal. Em 1887, Curitiba implantou seu primeiro sistema de transporte coletivo, operado por bondes puxados por mulas.
A modernização veio em 1913, com a eletrificação dos bondes, que passaram a operar em diferentes regiões da cidade e ampliaram a capacidade de deslocamento da população. Ainda assim, a estrutura urbana começava a dar sinais de saturação com o crescimento acelerado.
As primeiras canaletas exclusivas
A partir da década de 1970, Curitiba promoveu uma mudança decisiva ao adotar o transporte coletivo baseado em ônibus. Surgiam os eixos estruturais, com canaletas exclusivas para os ônibus.
O sistema baseado em vias estruturais tangenciando o Centro, organizadas em grandes eixos como Norte-Sul, Leste-Oeste e Boqueirão, passam a formar a espinha dorsal da mobilidade da cidade. O planejamento e a execução inicial dessa rede estruturante marcam a gestão do prefeito Jaime Lerner que foi seguida pelos seus sucessores.
Com isso, o sistema viário deixou de convergir exclusivamente para o Centro e passou a se estruturar em eixos lineares, reduzindo gargalos e criando novas centralidades urbanas. A pavimentação acompanhou esse movimento, chegando de forma mais ampla aos bairros.
A primeira usina de asfalto
Era preciso baratear o custo do asfalto para acabar com a poeira erguida nas ruas de pavimento primário, o saibro, que com o aumento no movimento de veículos e ônibus causava o descontentamento das pessoas. Em 1971 é implantada a usina de asfalto no Pilarzinho.
“A pavimentação com antipó foi a estratégia para criar uma superfície estável para que ônibus, motoristas e pedestres pudessem circular sem os transtornos das ruas de pavimento primário”, conta o engenheiro civil Livio Petterle Neto, assessor técnico da Secretaria Municipal de Obras Públicas (Smop).
A estratégia para eliminar as ruas de chão batido e o pó nos bairros foi estruturada pelo plano de Urbanização e Pavimentação dos Eixos Estruturais. Além dos eixos de transporte coletivo e a nova Cidade Industrial de Curitiba (CIC), fundada em 1973, receberam obras de antipó ruas nos bairros Santa Cândida, Pinheirinho, Capão Raso e Boa Vista, entre outros. Anos depois, a usina de asfalto foi transformada na Pedreira Paulo Leminski.
Os primeiros articulados
Curitiba inova na década de 1980, com a entrada do primeiro ônibus articulado do Brasil, aumentando a capacidade de transporte e reforçando a integração com a infraestrutura existente. O Linhão do Emprego, implantado em 1999, conectou bairros da região sul, promovendo desenvolvimento econômico e ampliando o acesso à infraestrutura.
Desde a CIC até o Cajuru, foram pavimentadas ruas e avenidas, que permitiram a instalação de novos comércios e indústrias na região, além da implantação de equipamentos públicos para atender aos cidadãos. A Rua dos Pioneiros, interliga o Sítio Cercado ao Alto Boqueirão, é um exemplo de via que teve o saibro substituído pelo asfalto.
Paralelamente, o município implementa o Plano 1000, para a pavimentação com antipó de mil quilômetros de ruas. O plano foi responsável por levar o asfalto para ruas de vila e bairros mais distantes do Centro, como a Vila Pompéia, no Tatuquara, Vila Cachoeira, no Sítio Cercado e Vila Rio Negro, no Pinheirinho. Naquele momento, Curitiba tinha 4.074,7 quilômetros de ruas. Deste total, 1.098,2 eram asfaltadas e 1.274,4 km com antipó.
“Eram ruas pontuais e locais. E dentro dessa lógica, há a qualificação de mudar um pouquinho a característica da rua, a parte do comércio, enfim, requalificar mesmo e valorizar o pedestre. Isso é muito importante”, comenta o arquiteto e ex-presidente do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), Mauro Magnabosco.
Corredores urbanos requalificados
A capital do Paraná entra nos anos 2000 com mais de 1,5 milhão de habitantes, uma malha viária extensa, porém ainda com muitas ruas de saibro. Novas estratégias são incorporadas, como a implantação de binários - vias paralelas em sentidos opostos - e a requalificação do asfalto de áreas centrais importantes como como a XV de Novembro, a Riachuelo, a Avenida Iguaçu e a Praça Osório.
Em 2004, a revisão do Plano Diretor estabelece novas diretrizes de crescimento e mobilidade. Entre os anos de 2005 e 2010, há ampliação significativa da malha asfaltada, com cerca de mais 400 quilômetros incorporados.
Linha Verde, a maior avenida da cidade
A implantação da Linha Verde, iniciada em 2007 e cujo trecho final do eixo do corredor de transporte viário que conecta o Norte ao Sul da cidade, ao longo da BR-476, foi finalizada em 2024. A obra combinou ao longo dos 22 km de extensão, diferentes soluções de pavimentação, com asfalto nas vias marginais e concreto nas canaletas exclusivas do transporte coletivo, reforçando a integração entre mobilidade e infraestrutura urbana.
Já entre 2012 e 2015, em um contexto de restrições orçamentárias, a política de pavimentação da cidade prioriza a manutenção da malha existente, com recapeamentos e conservação do asfalto pelo método do tapa-buraco.
Asfalto Novo
A partir de 2017 e a longo dos oito anos seguintes, a cidade recebeu a implantação de cerca de 1.200 quilômetros de asfalto novo com intervenções em aproximadamente 2 mil ruas, priorizando ligações entre regiões, acesso a escolas e unidades de saúde e demandas apontadas pela população.
A estratégia combinou implantação de pavimento onde antes havia saibro ou antipó com requalificação completa das vias, incluindo drenagem e infraestrutura, consolidando um dos maiores ciclos de investimento em pavimentação da história recente da cidade.