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Educação

Projeto Equidade melhora aprendizado e reduz faltas de alunos

O projeto abrange uma série de ações reparadoras diferenciadas, destinadas a minimizar fatores que dificultam o percurso escolar dos estudantes e garantir o direito à aprendizagem de qualidade

O ano escolar de 2015 terminou com vitórias para os 27 profissionais – professores, pedagogos e outros funcionários – que trabalham na Escola Municipal Pilarzinho, em Curitiba. - Na imagem, diretora Bárbara Xavier com alunos tendo apoio pedagógico. Curitiba, 01/12/2015 - Foto:Cesar Brustolin/SMCS

O ano escolar de 2015 terminou com vitórias para os 27 profissionais – professores, pedagogos e outros funcionários – que trabalham na Escola Municipal Pilarzinho, em Curitiba. Além da aprovação de 97% dos 167 alunos da escola, que atende do 1º ao 5º ano do ensino fundamental, a equipe comemorou a melhora do desempenho escolar e a redução de 70% no número de faltas. São os primeiros resultados do projeto Equidade, que desde março vem sendo implantado nesta e em mais 46 escolas da rede municipal de ensino.

O projeto abrange uma série de ações reparadoras diferenciadas, destinadas a  minimizar fatores que dificultam o percurso escolar dos estudantes e garantir o direito à aprendizagem de qualidade. Juntas, as 47 escolas reúnem aproximadamente 26 mil alunos do ensino fundamental, o que corresponde a  26% dos matriculados na rede municipal. Para cada escola, uma estratégia diferenciada, definida pelos próprios profissionais da unidade, com participação da comunidade escolar e com a orientação e acompanhamento dos núcleos regionais de ensino e equipes da Secretaria Municipal da Educação.  

Na Escola Municipal Pilarzinho, o Equidade vem mudando a forma como os alunos se relacionam com a escola, e a  comunidade escolar já percebe os efeitos positivos das mudanças. Se num primeiro momento elas parecem pequenas, basta conhecer histórias como a do estudante Moisés Walter, do 5° ano, para perceber como são significativas.

Moisés chegou transferido de outra escola, com bom desempenho em raciocínio e lógica, mas baixo rendimento em leitura – dificuldades que limitou a participação dele na Jornada de Matemática promovida pela Secretaria Municipal da Educação. As professoras chegaram a suspeitar que Moisés pudesse tem um distúrbio de linguagem como a dislexia, pois embora fosse ótimo nos cálculos, precisava evoluir na leitura para avançar na compreensão dos problemas matemáticos.

Foi aí que uma das ações do Equidade adotadas na escola fez a diferença. A escola passou a contar com uma professora para prestar apoio pedagógico individualizado aos estudantes. Moisés foi um deles.  “Foram meses de trabalho articulado envolvendo a equipe da escola, mas valeu o envolvimento, pois Moisés chegou ao fim do ano lendo e escrevendo bem”, conta a professora Geruza Fonseca Silva.

O orgulho da professora só não é maior que o do próprio estudante, que conta com alegria como a superação das dificuldades escolares melhorou sua vida. “Sou muito mais feliz e confiante. Hoje eu acredito que posso, sei que passei de ano porque sei ler e escrever”, diz Moisés.

O estudante pertence a um grupo de 50 crianças que ingressaram na escola em agosto, quando suas famílias foram transferidas de áreas de vulnerabilidade social na região do Parolin para o Conjunto Residencial Pinheiros, construído no bairro Santa Cândida pela Companhia de Habitação de Curitiba (Cohab-Ct).

 O conjunto fica a 9 quilômetros da escola e para garantir o acesso à educação, os estudantes têm ônibus à disposição, fornecidos pela Secretaria Municipal da Educação. “Com a chegada deste novo grupo de estudantes, as propostas do projeto Equidade que havíamos iniciado a partir de março precisaram ser revistas e iniciamos um novo trabalho, pois nos transformamos em uma outra escola”, conta a diretora Bárbara Maria Xavier.

Outro caso de superação na dificuldade de aprendizagem é o do estudante do 2º ano Mateus Eduardo Santos, de 8 anos. Ele começou  o ano sem saber diferenciar as letras do alfabeto. Com o apoio pedagógico, passou a dominar a escrita do nome completo e outras dezenas de palavras.  “Além de dominar palavras simples ele agora faz outras tentativas de escrita”, conta a professora Geruza.

Vínculos

Criar vínculo com os novos estudantes e suas famílias foi um dos primeiros desafios da escola, que chamou os pais para conhecer o ambiente e a proposta pedagógica, em reuniões individualizadas. Bárbara começou a receber os estudantes, um a um, diariamente no portão. “Iniciamos um processo de orientações às famílias sobre a importância da frequência escolar. Não há como ensinar ou retomar conteúdos com o estudante fora da escola. Felizmente funcionou e temos hoje uma redução em 70% no preenchimento das Fichas de Identificação de Aluno Ausente (Fica)”, comemora Bárbara.

A Fica é um instrumento usado para identificar e resgatar estudantes com baixa frequência. O acompanhamento da presença mudou radicalmente e agora, quando a falta do aluno é realmente necessária, as mães fazem questão de explicá-la pessoalmente à diretora. “Fizemos o que tinha que ser feito, trouxemos o estudante para dentro de sala e garantimos um ensino de qualidade, com ações direcionadas e específicas para cada um”, diz Bárbara.

Hora do recreio

A escola adotou outras medidas simples que contribuíram para melhorar o aproveitamento dos alunos. A hora do recreio, por exemplo, foi alterada, estendendo o tempo de aula no primeiro horário, quando o rendimento das turmas é maior. A escola também passou a programar passeios pedagógicos a museus, cinemas e teatros, para ampliar o repertório cultural dos alunos. A biblioteca da escola passou a ficar aberta e houve reforço nas atividades de leitura e escrita.

Os profissionais da escola também receberam acompanhamento. Equipes do núcleo regional de educação e dos departamentos da Secretaria Municipal da Educação passaram a trabalhar com maior integração. Os resultados do projeto Equidade puderam ser percebidos e comemorados nas reuniões de conselho de classe. A melhoria no desempenho escolar foi geral entre as turmas.

Para 2016 novas ações do Equidade estão previstas. Uma delas acontecerá em parceria com a Escola Alemã e startup Quiron, que juntas promoverão uma ação para fortalecer o  protagonismo entre os estudantes. A ideia é melhorar a autoestima dos meninos e meninas e trabalhar questões externas à sala de aula, mas que interferem na aprendizagem dos estudantes.

Média cluster

As 47 escolas que integram o projeto  Equidade foram definidas a partir da criação de uma média cluster, com o cruzamento de dados como o desempenho dos estudantes na Prova Brasil, do governo federal, do Índice de Desenvolvimento Básico da Educação (Ideb), da taxa de aprovação dos estudantes, da taxa de analfabetismo no entorno da comunidade escolar, e estudantes beneficiários do programa federal Bolsa Família, de beneficiários do Bolsa Família com baixa frequência e pela renda média domiciliar per capta do entorno da comunidade escolar.

A secretária municipal da Educação, Roberlayne Borges Roballo, explica que o projeto Equidade é fruto de dois anos de estudos e pesquisas das equipes da Secretaria Municipal da Educação, que mapeou e reconheceu as desigualdades e consequentemente as escolas onde há necessidade de ações emergenciais e reparadoras.

“Somos uma rede que possuí cinco entre as melhores escolas públicas do País, mas também escolas que precisam de um olhar diferenciado e ações ressignificadas. Há fatores de fora de sala de aula, de fora da escola, que interferem muito no desempenho escolar dos estudantes. Para reduzir a desigualdade precisamos ampliar as condições para o desenvolvimento”, diz Roberlayne.

Outra escola

Na Escola Municipal Anísio Teixeira, no Atuba, a aprendizagem dos estudantes também melhorou a partir da implantação do projeto Equidade. Um cantinho da leitura na entrada da escola, com acervo disponível para estudantes e funcionários, fez aumentar a leitura entre o grupo e com isso passaram a ser mais valorizadas as atividades de leitura e escrita. Outros projetos, como Sacola da Diversidade e Sacola Fera da Leitura, fizeram com que livros, jornais e revistas do acervo da escola fossem compartilhados pelas famílias com as criança,s levando os materiais para suas casas.

Um mural de oportunidades foi montado na escola para divulgar serviços prestados por pessoas da comunidade escolar e eventos culturais. O espaço valorizou a escola, assim como o Jornal Fala Teixeirinha, produzido pelos estudante para divulgar e valorizar o que acontece na escola.

Parcerias

Os resultados do primeiro ano do projeto Equidade são considerados muito positivos. Há avanços visíveis em todas as escolas que participam. 

A expectativa é que em 2016 os avanços sejam ainda maiores. Além das equipes da Secretaria Municipal da Educação, instituições e empresas estão se unindo como parceiros ao projeto. Na Escola Municipal Prefeito Omar Sabbag, no Cajuru, a união da Secretaria Municipal da Educação com a Fesp, Consulado da Finlândia e a startup Quíron tem garantido uma integração entre 180 estudantes de turmas de 7º e 8º anos da escola e aproximadamente 100 alunos e ex-alunos da Fesp. Juntos, os estudantes das duas instituições vão desenvolver projetos que estimulam autonomia pessoal e protagonismo, a partir da convivência entre estudantes do ensino superior e fundamental. Também são parceiros do projeto Equidade a Universidade de Cambridge, a Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e a Escola Alemã.