Texto: Quiteria Otilia Neves Brevilheri
Secretaria Municipal da Comunicação Social (Secom)
Texto: Quitéria Brevilheri
Prefeitura de Curitiba
Quando Vanessa Simões da Silva Oliveira propôs aos estudantes que pensassem em um experimento capaz de ser realizado na Estação Espacial Internacional (ISS), a ideia pareceu distante da realidade. Como uma atividade de contraturno em uma Unidade de Educação Integral Integrada (UEII) de Curitiba poderia chegar tão longe? Para a professora, a ciência começa justamente assim: com perguntas, curiosidade e disposição para testar possibilidades.
Servidora da rede municipal de ensino desde 2012, Vanessa trabalha com ciências e tecnologia desde 2018. Em 2024, foi uma das dez professoras brasileiras selecionadas para um programa internacional de formação em astronomia e astronáutica, promovido pelo Limitless Space Institute, em parceria com a IHS Towers e a Agência Espacial Brasileira. A experiência culminou em um desafio: desenvolver com os alunos um experimento que pudesse ser realizado na estação espacial.
Vanessa envolveu três turmas das Práticas de Ciências e Tecnologia da Unidade de Educação Integral Integrada (UEII) 330 Anos, no Boa Vista. Cerca de 90 estudantes participaram da criação e da discussão das propostas. O vídeo do experimento escolhido, realizado pelos astronautas da missão Ax-4 em 2025, foi liberado para divulgação em setembro de 2026.
“Eu faço mais perguntas do que trago respostas para o aluno. Eles vão testando. Não deu certo? Vamos mudar o material, colocar mais peso, colocar menos peso. É um processo de pensar, testar e aprender”, explica.
Da curiosidade à experiência no espaço
Durante a formação, os professores conheceram a abordagem Steam, que integra Ciências, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática em atividades práticas e investigativas. O desafio de criar uma experiência para a ISS levou as crianças a apresentar ideias, avaliar possibilidades e considerar as condições de segurança do ambiente espacial.
Uma das sugestões foi uma explosão de glitter. A proposta despertou entusiasmo, mas a discussão mostrou que pequenas partículas poderiam ser inaladas pelos astronautas ou danificar equipamentos. A restrição se transformou em aprendizado sobre os cuidados necessários para realizar um experimento científico.
“Eles nunca tinham pensado nisso. Nem eu, na verdade. Foi um aprendizado para todos nós”, lembra Vanessa.
A experiência
A ideia escolhida partiu de uma estudante, que sugeriu investigar o comportamento de bolinhas de diferentes massas. A proposta foi aperfeiçoada até chegar ao estudo da conservação e transferência de momento, princípio da Física relacionado às colisões e às mudanças de movimento dos corpos.
Para preparar a experiência, a professora realizou testes com bolinhas e outros materiais, além de atividades com skate para discutir as diferenças entre o movimento na Terra e em condições de microgravidade. Também contou com o apoio de professores de Física e da Universidade Uninter para aprofundar os conceitos e adaptá-los à compreensão das crianças.
O experimento foi realizado pelos astronautas da missão Ax-4, a bordo da estação espacial. Para Vanessa, o resultado representa o valor de um processo construído coletivamente, desde as primeiras sugestões até os testes e ajustes.
Aprender fazendo
O projeto é parte de uma trajetória dedicada a aproximar a ciência do cotidiano escolar. Em 2019, Vanessa foi selecionada para um mestrado profissional na área de ensino de Ciências, no qual desenvolveu um jogo educativo para ajudar os estudantes a compreender o Universo e as órbitas dos planetas. As atividades da Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (OBA) e a construção de foguetes também contribuíram para ampliar esse trabalho.
Na abordagem Steam, atividades práticas mobilizam diferentes conhecimentos. Ao construir um foguete, por exemplo, os estudantes investigam materiais, exploram formas geométricas, discutem peso e equilíbrio, testam soluções e analisam resultados.
“Você precisa compartilhar, viver a experiência e colocar suas ideias em prática. Elas nem sempre vão dar certo. Você vai ter que tentar de novo, vai errar, vai acertar”, diz a professora.
Depois da formação internacional, Vanessa trouxe novas propostas para a escola, como a construção de carrinhos movidos a energia solar e o uso de aplicativos que simulam operações espaciais, entre elas o acoplamento de uma nave à estação internacional.
“É muito legal perceber que a gente também está aprendendo com os alunos. O professor não é uma enciclopédia que sabe tudo e as crianças precisam apenas ouvir. A gente constrói conhecimento junto”, afirma.
A ciência continua
Vanessa recebeu o vídeo do experimento no fim de 2025, quando se preparava para o nascimento da primeira filha, em dezembro daquele ano. Após a licença-maternidade e a licença-prêmio, retornou às atividades em outubro de 2026, na Escola Municipal Jaguariaíva, no Bacacheri.
Nesse intervalo, muitos dos estudantes que participaram do projeto deixaram a rede municipal. A professora ainda pretende compartilhar com as crianças o registro da experiência que ajudaram a desenvolver.
“A ciência é viva. Não é uma coisa que você faz agora e tem um resultado imediato. Às vezes, demora, porque é um processo. A semente foi plantada, e eu consigo trabalhar com outros alunos e dar continuidade a esse projeto”, avalia.
A formação também ampliou sua visão sobre a educação, por meio do contato com professores de diferentes regiões do Brasil e de outros países. Vanessa gostaria que oportunidades semelhantes alcançassem mais profissionais e estudantes.