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Habitação e saúde

Apartamento adaptado permite que menino com síndrome rara passe mais tempo em casa

Quando vivia na antiga casa de madeira, Bernardo passava mais tempo no hospital do que no próprio lar. Nova moradia permitiu a instalação de aparelhos para que ele receba os cuidados de saúde em casa com a mãe

No Residencial Theo Aterino, a moradora Pâmela celebra a nova fase de vida ao lado dos filhos Adrian (em pé) e Bernardo, que deixaram para trás uma área de risco. Curitiba, 23/09/2026. Foto: Rafael Silva/Cohab

Texto: Eduardo Amatuzzi
Prefeitura de Curitiba

Bernardo, de 6 anos, percorre o pátio do condomínio em sua cadeira de rodas. Ele precisa do cilindro de oxigênio 24 horas por dia. Com a ajuda da mãe, Pamela Íris dos Santos, chega ao parquinho e desce no escorregador. “Ele gosta da bagunça”, conta Pamela. São momentos simples da infância que ganharam espaço na rotina da família depois da mudança para o Residencial Theo Aterino, no Tatuquara, em abril deste ano.

Bernardo tem uma síndrome genética rara relacionada ao gene SCN2A. O diagnóstico só veio depois de quase três anos de investigação. “É uma doença muito desconhecida”, explica a médica Luciana Carine dos Santos, da Estratégia Saúde da Família da US Moradias da Ordem, que faz visitas domiciliares periódicas ao condomínio, junto com agentes comunitários de saúde.

O menino apresenta crises epilépticas de difícil controle e disautonomia, além de necessitar de acompanhamento neurológico, respiratório e gastrointestinal. Usa oxigênio continuamente, ventilação mecânica e alimentação por sonda. Os cuidados exigem equipamentos, profissionais e atenção permanente.

Casa antiga não tinha estrutura

Durante anos, conciliar tudo isso com a vida em casa foi mais complicado. Pamela morou por 12 anos em uma construção de madeira na Vila Califórnia, no Santa Cândida. Segundo ela, havia frestas por onde entravam vento e frio, e a estrutura não oferecia as condições necessárias para possibilitar o atendimento de Bernardo. A mãe associa aquelas condições ao adoecimento frequente do filho na época.

“A imunidade ficava muito baixa, a gente passava mais tempo no hospital do que em casa, eram internações que duravam meses, uma rotina muito difícil. Depois que mudamos para cá, melhorou demais e passamos a maior parte dos dias em nosso lar”, conta Pamela.

Além do atendimento domiciliar feito por clínica geral e dentista da US Moradias da Ordem, a rotina inclui acompanhamento neurológico, pneumológico e gastroenterológico, além de ortopedia, fonoaudiologia e nutrição pelo Sistema Único de Saúde (SUS), no Hospital Pequeno Príncipe.

“O atendimento domiciliar é importante por causa das dificuldades de mobilidade do Bernardo. A nova moradia oferecer a estrutura para instalação dos equipamentos é fundamental neste processo”, destaca a Dra. Luciana, que acompanha o paciente há cinco meses.


Adequado às necessidades

Antes da mudança, Pamela informou à equipe da Cohab sobre as necessidades do filho. A estrutura elétrica recebeu adequações, com a colocação de mais tomadas. No apartamento estão instalados dois cilindros de oxigênio, concentrador, ventilação mecânica, umidificador, inalador, aspiradores de secreção, oxímetro, bomba de infusão para dieta, respirador e no-break para o caso de queda de energia.

O banheiro conta com porta mais larga, barras de apoio e torneira que abre mais fácil. A diferença também aparece na entrada e na saída de casa. O apartamento térreo fica estrategicamente posicionado no primeiro bloco, com vaga de estacionamento reservada para a ambulância que transporta Bernardo para consultas presenciais. 

“Tem dias em que ele está mais sonolento e tirar ele no braço era bem complicado. Na casa antiga a entrada tinha degrau e a calçada ficava com muito limo, com risco de escorregar. Aqui ficou mais fácil e seguro”, diz Pamela. 


Políticas públicas que se somam

A história de Bernardo mostra o encontro de diferentes políticas e serviços públicos que juntos melhoram significativamente a qualidade de vida da população. A moradia criou condições para o atendimento domiciliar de saúde.

Além disso, Pamela é atendida no CRAS Laguna, onde obtém doações de móveis, cestas básicas e outros atendimentos sociais, como a prova de vida para recebimento de seu benefício. No Armazém da Família, ela aproveita as ofertas para a compra de mantimentos para sustentar, além de Bernardo, mais um casal de filhos de 14 e 12 anos.

A proximidade da Unidade de Saúde Moradias da Ordem também melhorou o dia a dia. Quando precisa de orientação, Pamela conta que consegue contato rápido com a equipe. Se necessita buscar uma medicação, ela se organiza para reduzir o tempo em que precisa permanecer fora de casa.

E sair de casa deixou de significar apenas ir a uma consulta ou ao hospital. Como a estrutura do condomínio permite circular com a cadeira e o cilindro de oxigênio, os passeios de Bernardo pelas áreas comuns são frequentes. Para uma família acostumada a medir a rotina entre períodos dentro e fora do hospital, essa simples atividade representa uma mudança profunda: o aconchego de estar em casa.