Texto: Cláudia Gabardo
Prefeitura de Curitiba
Um presente de fim de carreira. É assim que a terapeuta ocupacional de formação Maria Amélia Natel Kugler Mendes encara a oportunidade de estar à frente da Gerência de Cuidado e Reinserção Social do Departamento de Política sobre Drogas nos últimos 4 anos dos 34 de carreira no serviço público municipal.
Atualmente sob gestão da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Humano (SMDH), setor que ela toca é responsável por uma atribuição que a maioria dos servidores de carreira da Prefeitura de Curitiba certamente não se disporia a assumir: a atenção às pessoas que, além de estarem em situação de rua, também enfrentam a dependência química.
“Se com o meu trabalho eu transformasse apenas uma vida, teria valido a pena mesmo assim”, resume Maria Amélia, que já perdeu a conta de quantos homens e mulheres de diferentes idades passaram por ela nos serviços de triagem, aceitaram apostar na reinserção social por meio das comunidades terapêuticas e completaram o processo na unidade de acolhimento temporário Nova Morada Vida Nova, da Prefeitura.
“Sinto uma felicidade e um orgulho imensos quando vejo os meninos se recuperando, ganhando seu salário e alugando o próprio imóvel para morar. Não tem dinheiro que pague isso”, afirma Maria Amélia.
Seu trabalho é completamente diferente daquele a que se propôs em 1992, quando se tornou analista de desenvolvimento organizacional do Instituto Municipal de Administração Pública (Imap). Desde aquela época, prestou assessoria para órgãos da área social da Prefeitura. Entre eles estiveram a Fundação de Ação Social (FAS), a Secretaria Municipal da Saúde (SMS), a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social e Trânsito (SMDT) e o portal dos conselhos de direitos comunitários.
Segundo a servidora, é da experiência com todas essas áreas que vêm as referências para promover a reinserção de quem está vivendo nas ruas e consumindo drogas, duplamente vulnerável. “Uso todo o meu conhecimento para dar conta da minha missão”, revela.
Olhares
Apesar de ser cordial, tranquila e falar baixo com todos, com apenas 1,60 m de altura Maria Amélia impõe respeito mesmo entre um ou outro acolhido mais exaltado. “Tenho muita gente do meu lado, se for preciso, pra me defender”, diz. Acolhe com ânimo, mas desliga sem titubear quem desrespeita as rígidas regras da unidade de moradia temporária. E pelas impressões deixadas entre equipe e público, está sendo bem-sucedida.
Segundo a pedagoga Elessandra Aparecida Ávila Güntner, que faz parte da equipe de Cuidado e Reinserção Social do Departamento de Política sobre Drogas desde abril do ano passado, Maria Amélia trata dos colegas de trabalho da mesma forma que faz com os acolhidos. “Ela desperta a sensibilidade, inspira e não desiste de ninguém”, resume.
Vinda da área da Educação, de cara Elessandra admite que ficou muito assustada com o novo setor e cogitou não voltar para o segundo dia de trabalho. “Mas eu voltei. E ela, percebendo meu desconforto, me delegou uma tarefa para eu fazer com muita calma, no meu tempo: conversar com cada acolhido para traçar o perfil de cada um. Então eu ouvi dezenas deles e, com essa escuta, passei a ver os acolhidos além da condição de pessoa em situação de rua e a gostar desse trabalho. É como se ela também tivesse me resgatado. Deu muito certo a nossa parceria”, afirma.
Resgatado das ruas pela FAS e responsável pela cozinha da unidade de acolhimento Nova Morada Vida Nova nos últimos 2 anos, o ex-comerciante Márcio Budim garante que Maria Amélia tem papel especial na sua recuperação. Ele ficou sem ter onde morar porque perdeu tudo nos jogos de cartas.
“Devo muito à Dona Maria Amélia, que me trouxe do Centro Pop da Doutor Faivre, viu o meu perfil e confiou em mim para cuidar da alimentação do pessoal”, diz o ex-acolhido e atual funcionário do local. “Se ela não tivesse me recebido aqui, possivelmente teria começado a consumir drogas”, completa Márcio.
Tempo e família
Nascida em Tibagi, no Norte Pioneiro do Paraná, Maria Amélia chegou em Curitiba em 1981, com 16 anos. Filha de pai militar e mãe professora, tem duas irmãs, três filhos e uma neta de 1 ano e 6 meses.
O tempo de carreira na Prefeitura, a chegada da terceira geração e os 61 anos de vida, porém, não a fazem pensar em aposentadoria. “Quero continuar, pelo menos até o fim dessa gestão. Ainda tenho muito trabalho pra fazer aqui”, explica ela, que cada vez mais faz questão de aproveitar o tempo livre junto da família. “A morte da minha mãe, no ano passado, foi muito triste pra todos, mas nos uniu ainda mais. Tudo é aprendizado”, conclui.